Verão quente de 2020

Foi ontem o primeiro dia de Verão e já se adivinha bem quente. Para todas as actividades, sobretudo as umbilicalmente ligadas ao Verão, adivinham-se tempos de adaptação, ainda e sempre de incerteza e, sem dúvida, em muitas situações, de exageros. Mas ninguém duvide que, mais quente do que este Verão, vai ser o próximo Outono, quando começarmos a descobrir não o que provoca o Covid-19, isso ninguém sabe bem, mas os provavelmente piores efeitos colaterais, bem reais e que serão bem mais visíveis, do Covid-19.

Bem, por enquanto o Verão e, porque falamos de ciclismo, a nossa referência, a Volta a Portugal em bicicleta. Desde logo ninguém pode duvidar que esta é a corrida mais essencial para o país velocipédico. Já aqui o explanámos por razões várias, incluindo comparando-a com a Volta ao Algarve. Ambas as provas importantes, mas uma delas, a Volta a Portugal, com uma importância decisiva.

Por isso mesmo, um Verão (que começou na Primavera) de muito trabalho. Adaptações de planos, adaptações constantes de percurso, modelos diferentes na instalação de equipas, mais despesas, mais despesas com policiamento (outra vez!).
Se o percurso da Volta nunca é fácil de definir, este ano então parece um dos doze trabalhos de Hércules. Não são só os locais de partida e chegada, mas também os locais de passagem. Não pode a organização, como alguns pensam que se pode fazer, realizar um risco linear no mapa. A mera passagem depende também de diversos factores. Sempre dependeu e o provocado clima sanitário actual faz depender de ainda mais. Claro, convinha também evitar muitas ligações entre etapas, mas não é fácil.
Nas equipas, também será tudo bastante estranho. Habituadas a trabalhar de uma determinada forma, e com pouco, a presença constante de um médico, uma permanência diferente nos hóteis e uma divisão de tarefas que terá de ser diferente entre os membros do staff vai obrigar a uma nova vida em equipas que não têm, obviamente, a capacidade das estruturas Worldtour. É quase o fim da figura do faz-tudo, tão característica e oportuna no ciclismo português e que, sem modéstia, provoca alguma admiração nos estrangeiros.

Enfim, testes sanitários, quarentenas (seja lá o que isso for), quase um reclusão dentro da própria corrida, um isolamento que não é fácil de cumprir à risca. A logística da Volta para as equipas é, para a maioria, quase impossível de realizar ab initio. É por exemplo natural que tenham de existir compras de alguns produtos pelo caminho o que obriga evidentemente à saída, precária, dessa reclusão. E num pelotão que se adivinha com mais equipas, de vários países, também há mais gente a sair. Não temos dúvidas porém que com as devidas cautelas tudo se resolve.

Mas provavelmente, acima de tudo, algo que nos preocupará, num ano difícil e em futuros anos difíceis, será o aumento das despesas com a prova. Despesas que aumentam para todos os principais intervenientes. Esperemos alguma sensibilidade de quem, em vez de gastar, vai receber. E há muita gente que, sem grande esforço, se vai preparar para receber.

Um Verão quente, mas sem público. Ou por outra, com o público dividido por sectores, nas partidas e chegadas e, por tentativa, afastado do pessoal desportivo. Não será a festa do costume, mas também, para os mais puristas, se evita a rebaldaria do costume. No fundo, essencialmente, quem verá a Volta a Portugal deste ano será de facto o público habitual do ciclismo.

Acaba, contudo, por se perder essa interessante vertente de festa de Verão. E neste contexto não pode deixar de se reparar que, curiosamente, algumas das justificações de municípios que não pretendem participar nesta Volta se prende também com a não realização de festas populares e romarias. Mas, se o público presente se vai distinguir (e esperemos que não existam exageros sanitários, ou de autoridade, com o que será ou não permitido ao espectador comum e tendencialmente cumpridor) também os municípios, com este contexto, se vão distinguir.

Uma Volta a Portugal diferente. Como outras. Porque uma competição com quase cem anos, que começou com uma logística de início do século passado, já assistiu a mais do que qualquer diretor de um organismo estatal qualquer pretenderá assistir ou, perceber. A História devia ser uma disciplina obrigatória para todos até ao fim dos tempos de Liceu (ou secundário!). Permite ao cidadão perceber, e enquadrar, muito mais facilmente algumas situações, nomeadamente de âmbito social. Isso, e ler, para além da nossa área de actuação e do óbvio ou do obviamente anunciado. Ou então, como o nosso Alípio Abranhos (personagem do grande Eça de Queiroz) reservam-se a Ministros da Marinha, sem saberem nadar!

As condicionantes são muitas, algumas necessárias, outras, por opinião própria, nem tanto, mas o mais importante é que exista ciclismo. E, por tendência, a “malta” do ciclismo costuma ser inventiva. Sabe-se lá se surgem deste tempo grandes ideias que se possam adaptar num futuro regresso à normalidade que se deseja e que acaba por ser o único caminho útil à sociedade.

Aguardemos um Verão quente, com algumas lufadas de ar fresco. E, não se esqueçam, há a Volta, mas começamos na Anadia. Em liberdade, até onde me permitirem, conto lá estar. Quanto mais não seja, para também contribuir para a economia (gastronómica) local! Merecem.
Luís Gonçalves