Um meteoro chamado Pantani

«Il Pirata» como era conhecido no pelotão, e no ciclismo mundial, por usar uma bandana na cabeça, foi mais uma legenda que passou como um meteoro nas nossas vidas. Marco Pantani nasceu em Cesena, em Itália, no dia 13 de Janeiro de 1970. Teve uma infância feliz como qualquer menino, vivida numa propriedade dos avós na Via Saffi em Cesenatico. Aos 11 anos participa numa prova que tinha o nome de um grande ciclista, Fausto Coppi, usando a bicicleta pesada que a mãe, Tonina, usava para ir trabalhar. Começou aí a grande paixão pelo ciclismo. Vence a sua primeira corrida em Abril de 1984, aos 14 anos, em solitário no Grande Prémio Case Castagnoli di Cesena. Gostava das subidas, quanto mais empinadas melhor. Media 1,72 m já adulto e tinha formado o seu corpo para escaladas, tornando-se um dos maiores trepadores de todos os tempos. Era nesse terreno que atacava e deixava para trás os adversários.

Tornou-se profissional na equipa italiana Carrera Jeans – Vagabond em 1992. Ao longo dos seus 11 anos de carreira, correu 16 Grandes Tours: cinco Tours de França, onde venceu oito etapas e venceu o Tour em 1998; participou em oito Giros de Itália, venceu oito etapas e venceu o Giro em 1998. No mesmo ano venceu o mesmo número de etapas nos dois maiores Grandes Tours, França e Itália. Participou em duas Vueltas, em 1995 e em 2011, onde não terminou nenhuma delas. Em 1998 vence também a camisola de melhor trepador no Giro. Acaba a carreira em 2003 na equipa Mercatone Uno – Scanavino. No seu palmarés consta uma vitória na Vuelta a Murcia em 1999 e na A Travers de Lausane na Suiça em 1998. A sua forma explosiva de arrancar nas subidas acabou por influenciar muitos ciclistas, como por exemplo Alberto Contador.

Na memória ficam vitórias como a do Tour de 2000 no Mont Ventoux onde discutiu roda a roda com a camisola amarela na altura, Lance Armstrong, onde dizem foi permitida pelo norte-americano que veio a declarar anos mais tarde que gostava da forma de correr de Pantani. Mas o momento alto da carreira de Marco Pantani é o ano de 1998. No Tour desse ano, na etapa 15 numa chegada a Les Deux Alpes dá quase 9 minutos de avanço a Jan Ullrich, o vencedor do ano anterior do Tour. Uma humilhação de todo o tamanho para o ciclista da Telekom. Desde 1965 e através de Felice Gimondi que nenhum outro ciclista italiano lograva vencer um Tour. No final da grande prova francesa de 1998, deu mais de 3 minutos ao alemão Ullrich, todos ganhos na alta montanha. No Giro desse ano termina em primeiro com 1:33m sobre Tonkov da Mapei. Pantini não era um grande contra-relogista mas defendeu-se bem de Tonkov no último contra-relógio, gerindo o tempo que ganhou ao Russo nas montanhas.

No ano seguinte às gloriosas vitórias no Giro e no Tour, Marco Pantani preparava-se para vencer mais um Giro quando é expulso da competição porque testara positivo a EPO. A sua grande popularidade principalmente pelos tifosis italianos continuou em alta durante mais um ano. A sua última vitória ocorreu no ano 2000 no já relatado duelo com Lance Armstrong no Mont Ventoux. Viria a desistir na 16ª etapa. A partir desse ano foi o declínio na carreira do italiano que se refugiou em drogas ao ponto de ter sido internado com um grande depressão em Junho de 2003.

Em 14 de Fevereiro de 2004, Marco Pantani aparece morto num Hotel de Rimini perto da sua cidade natal, tendo a autopsia revelado overdose de cocaína. Segundo a ex-namorada Christina Jonsson afirmou que Pantani se tinha refugiado na droga e no álcool nos últimos anos. Em 2016 surge a notícia que a Máfia Italiana é apontada com responsável pelo teste positivo de 1999. Verdade ou mentira, a justiça italiana afirma ter esclarecido o caso Pantani, apontando como responsável um membro da Camorra italiana como manipulador pelo resultado do exame, ameaçando o médico responsável pelos testes sanguíneos. A tese era que Pantani era o grande favorito e a máfia apostara noutro ciclista nas apostas desportivas. O chefe da investigação que desmascarou o caso, Sérgio Sottani confirmou o desfecho: o hematócrito do atleta demonstrou 51,9 % de glóbulos vermelhos enquanto o máximo permitido pela UCI era de 50%.

Mais um caso de doping entre milhares. Mais um caso mirabolante. Mais um ciclista que ficou para a história pelos melhores e piores motivos. É assim o ciclismo, sempre o foi e continuará a ser, um desporto tão apaixonante como trágico.

Jorge Garcia