Lance “Ícaro” Armstrong

Lance Edward Gunderson (nome nativo), nasceu em 18 de Setembro de 1971, na cidade de Plano, Texas, Estados Unidos da América. Filho de pais separados, foi adoptado por Terry Armstrong, de onde herda o seu apelido. Começou desde muito cedo a ter gosto pela pratica do desporto. Começou pela natação e depois aos treze anos descobriu o triatlo. As vitórias apareceram muito cedo e percebeu-se que estaria ali um talento, principalmente para o ciclismo. E eis que aos 21 anos é Campeão Mundial de Ciclismo de Estrada em Oslo em 1993, à frente de Miguel Indurain que ficou a 19 segundos do jovem texano. Uma surpresa de todo o tamanho e que lhe mudou a vida profissional e mediática. A sua primeira equipa profissional foi a Motorola onde ingressou em 1992. A sua primeira corrida foi a Clássica de San Sebastian em Espanha onde ficou em último lugar. Ironia das ironias, três anos depois vence essa mesma prova. Em 1993 vence a sua primeira etapa no Tour de France na chegada a Verdun. Sofreu de um cancro testicular diagnosticado em 1996 e luta contra a doença durante um ano. Lance mais tarde decide criar uma Fundação com o seu nome para a luta conta o cancro.

O semblante de esforço de Lance é mais visível que nos ciclistas atuais.

A sua primeira vitória no Tour ocorre em 1999 ao serviço da US Postal Service, feito que repete em 2000, 2001, 2002, 2003 e 2004. Em 2005 a sua ultima vitória no Tour já foi com as cores da Discovery Channel. Os primeiros indícios de que Armstrong tomava EPO (eritropoietina) foi detectado no Tour de 1999, mas nessa altura não havia tecnologia para detectar este agente estimulante. A analise foi feita pelo Laboratório Nacional de Detecção de Dopagem (LNDD) e a notícia/bomba com os resultados, foi publicada pelo jornal L´Équipe apenas seis anos mais tarde, em 2005. Em Maio de 2006 um relatório encomendado pela UCI para estudar as acusações que tinham sido feitas a partir das fontes do L´Équipe, acabam por considerarem uma má conduta por parte da WADA (Agência Mundial Anti-Doping) e o LNDD, o tal centro de dopagem francês que escondeu o resultado positivo. E aqui começa um grande imbróglio entre a UCI e Émile Vrijman, uma advogada holandesa que chefiou dez anos a WADA e depois defendeu uma serie de ciclistas acusados de dopin. Em 2011 são feitas novas acusações a Armstrong desta feita por dois dos seus mais íntimos colegas. O americano Tyler Hamilton tinha sido companheiro de equipa do texano durante vários anos e conhecia todos os pormenores das dopagens. Decidiu contar tudo que sabia ao FBI que investigou tudo e obteve o depoimento de vários outros colegas e ex-colegas. Já não havia como conter tamanho escândalo.

É então que a USADA (Agencia Antidopagem Americana) acusou formalmente Armstrong do consumo de substâncias ilícitas,  baseando-se em amostras sanguíneas, entre 2009 e 2010 e nos testemunhos de colegas e ex-colegas. Cansado de lutar contra as acusações de que era acusado, e de ter despendido milhares de dólares com advogados, dá-se como vencido. Em 2012, finalmente a UCI toma a decisão de o banir do ciclismo de competição e retirar-lhe todos os títulos a partir de 2008 por uso de dopagem bioquímica. São-lhe retiradas as 7 vitórias consecutivas no Tour de France, entre 1999 e 2005. Toda a fortuna do texano foi desaparecendo com a quebra da maior parte dos patrocínios e a devolução dos prémios pecuniários à justiça. Humilhado, é obrigado a deixar a presidência da sua fundação Livestrong que fundou em 2003. Refugiou-se numa nova relação sentimental e foi combatendo como pôde todos os processos judiciais, perdendo quase toda a fortuna.

Contudo, em 18 de Janeiro de 2013, Lance Armstrong decide dar uma entrevista, «sem condições e numa conversa aberta», combinado entre ele e a super-famosa Oprah Winfrey que o entrevistou para o Discovery Channel. A entrevista foi vista por milhões de espectadores. As perguntas chave são estas e parecem o que de mais importante importa reter dessa entrevista, ei-las:

Oprah Winfrey: Você já tomou substâncias proibidas para melhorar sua performance?

Lance Armstrong: Sim.

OW: Uma das substâncias era EPO?

LA: Sim.

OW: Você já fez doping sanguíneo ou transfusões de sangue para melhorar a sua performance no ciclismo?

LA: Sim.

OW: Você já usou alguma outra substância proibida, como testosterona, cortisona ou hormônio do crescimento

LA: Sim.

OW: Em todas as sete vitórias da Volta à França você tomou substâncias proibidas ou fez doping sanguíneo?

LA: Sim.

OW: Em sua opinião, era humanamente possível, ganhar a Volta a França sem doping, sete vezes consecutivas?

LA: Não, na minha opinião.

Desde essa entrevista nada mudou no ciclismo, a não ser o engrossar de novas substancias proibidas. Novos casos aconteceram. Foram criados movimentos como o MPCC – Movimento Por um Ciclismo Credível, criado em 2007 por sete equipas patrocinadas por ciclistas de estrada profissionais. Mas este movimento tem vindo a perder apoiantes. Actualmente só fazem parte as seguintes equipas WorldTeams: AGR La Mondiale, Astana, Bora-hansgrohe, CCC, Cofidis, Deceuninck-Quick Step, EF-Education Firts e a Groupama-FDJ, mas nem todos os ciclistas dessas equipas são membros. A unica que tem a maioria dos seus ciclistas é a AGR La Mondiale. O mais recente demissionário foi Tom Domoulin. O doping no ciclismo continua a ter uma dimensão superior a outros desportos, que sabemos todos de antemão, são em maior numero e se calhar bem mais graves.

Em 25 de Maio de 2020 o canal por cabo ESPN emite a primeira de duas partes do documentario «30 for 30: Lance» a segunda parte no dia 31.

O documentario começa por contar tudo o que aconteceu no mundo do doping, os produtos, as técnicas, os testes que falham, o que se esconde, os médicos que o sabem criar e esconder. São ouvidos muitos dos intervenientes do ciclismo que se doparam, muitos deles ex-colegas de Armstrong. O texano prometera contar a sua verdade sobre o seu caso. Num misto de culpa e de falta dela, diz que mesmo sem o doping era o mais forte. O assunto torna-nos no minimo confusos. E as opiniões sobre o fenomeno Armstrong são e serão sempre discutiveis. Tyler Hamilton ex-colega, e a peça chave, pergunta que verdades há para contar por parte de Armstrong? Quem assistiu ao documentario esperaria mais e é obrigado a concordar com Hamilton. De novo só mesmo as criticas que o americano lança a outros atletas que também foram apanhados nas malhas do doping. Disse por exemplo que Ivan Basso continua a ser idolatrado em Italia, que fala na televisão, tem empregos e foi ele um dos culpados da morte de Pantani, destruindo-o na imprensa. Acusa a Alemanha de idolatrar Zabel e Aldag, de lhes dar empregos, mas foram eles que destruiram a carreira de Jan Ullrich. Sobre os seus conterraneos ainda se torna mais caustico e acusaGeorge Hincapie de gozar de grande prestigio. Diz: fui visitar um dia destes Ullrich, para falarmos de todos estes tipos que erraram como nós, mas que foram perdoados. Este documentário não trás nada de novo, nem para Lance Armstrong nem para o ciclismo. Disse o que já conhecemos da carreira dele. Foi apenas um lavar de roupa suja. Então porque decidiu Lance Armstrong aceitar fazer este documentario? Fica para cada leitor a resposta a esta questão.

Só para concluir, o que tem a ver Ícaro com todo este artigo?

Ícaro era filho de Dédalo, figuras da mitologia grega, contam que pai e filho queriam abandonar a ilha de Creta, onde se encontravam presos por crimes cometido por Dédalo. Decidiram então planear a fuga da ilha e começam a construir umas asas feitas de cera de mel de abelha, que existiam abundantemente na ilha e umas penas de passaros de vários tamanhos. E assim moldaram umas grandes asas, convencidos que dessa forma conseguiram fugir da ilha. Porém Dédalo alertou o filho para que não voasse muito perto do Sol para que a cera das asas não derrete-se, nem que voasse muito perto do Mar, para que as asas não ficassem muito pesadas. Ícaro não deu ouvidos ao pai e tomado pelo desejo, acabou afogado no mar Egeu por ter voado muito perto do sol. A ilha Icaria existe e situa-se a sudoeste do mar Egeu. Consta que é uma ilha grega onde as pessoas se esquecem de morrer…

Jorge Garcia