Armstrong: o Voldemort, da saga Harry Potter

Já o assinalei várias vezes. Lance Armstrong é um daqueles casos ao qual só será feita verdadeira justiça daqui a vinte anos, mesmo que sejam cinquenta, ou, cem. É daquelas novelas em que a História da humanidade é pródiga. E a História desportiva da humanidade é imensamente curta, apesar de ter evoluído mais em cem anos do que a ciência política em cinco mil anos.

Lance Armstrong foi um dopado? Foi. Ele próprio o disse e concerteza confirmará de novo nas suas próximas entrevistas. Mas, Lance Armstrong foi, ainda assim, um atleta de excepção? Ninguém, com puras intenções, terá coragem para dizer que não.
E, em todo este contexto que sabemos existir, porquê perseguir Lance Armstrong? Bem, desde logo, porque assumiu a imprevidência de ser ciclista. O ciclismo é verdadeiramente, e desde que existe controlo, a modalidade mais controlada. Às vezes parece a única que é controlada a sério. E o controlo a sério não tem nada a ver com o número de controlos efectuados, mas essencialmente com o universo dos que são controlados e, sobretudo, com a forma. Por este prisma há, inevitavelmente, modalidades com um controlo perfeitamente anedótico, apesar de ser largamente apregoado o contrário.

Claro que aqui, também podemos colocar em questão como é que um dos atletas mais controlados de sempre, escapou entre os pingos da chuva. A resposta é evidente. Não terá escapado sozinho. E, por evidência óbvia, até os controladores, esses virgens seres, terão de ter estado envolvidos!

Mas, “apanhar” Lance Armstrong, terá sido mais uma questão política do que desportiva. Politica económica e política de eleições. O americano comum adora um bom episódio de vitória da grande nação americana e, sobretudo, de superação pessoal. Lance Armstrong tinha isso tudo e piscava perigosamente o olho à política, em ambiente de partido republicano. Porventura não terá sido por acaso que sua queda começa na vigência do partido democrata.

Neste ambiente, podemos pensar porque é que a Usada, pelo braço armado de Travis Tygart, não perseguiu um qualquer atleta da NBA, ou de futebol americano, também famosos à escala mundial, modalidades que também sabemos não estão impolutas. Aliás, apesar de se vender a imagem contrária, conhecemos bem que o “esquema” da US Postal não era assim tão elaborado, mas, bem se sabe, apenas copiado de outras modalidades. Talvez a Usada, tenha sido usada, como sucedeu por aqui connosco no célebre caso Carlos Queiroz que, ninguém, ainda hoje, sabe quanto custou aos contribuintes portugueses.

Mas, em bom rigor, como jurista, o que me faz mais confusão é a conformação da Usada, e da chamada justiça desportiva (que não existe), com uma confissão, não no devido local, mas num programa de televisão. Assim, nunca ninguém soube muito bem o que continham as mais de mil páginas de factos e provas assinaladas pela Usada. E seria interessante saber. Embora a forma de ser dos americanos seja diferente, não deixará de parecer estranho não se terem submetido todas as supostas evidências à verdadeira justiça. Como bem dizem os portugueses, “quem não deve, não teme” e ninguém justo ficaria conformado com uma confissão em ambiente duvidoso. O pior que pode acontecer à justiça, ou à falta dela, é uma condenação num contexto destes. Aqui, à nossa escala, seria condenação feita pela CMTV.

Provavelmente, o problema, é que existiria muito a temer. Lance Armstrong, sabia e sabe muito. Assim, também não será por acaso que as propaladas indemnizações que arruinariam definitivamente o americano nunca surgiram nos valores inicialmente assinalados, nem pelas empresas que prometiam “vendeta”! Foram algumas, lesivas do património, mas não as que se falavam no início e, penso, as que existiram, todas conseguidas por acordo das partes. Nem os seus inimigos mais próximos vieram afrontá-lo. E, as empresas, também sabiam que o grande boom mediático do ciclismo americano surgiu, definitivamente, com Armstrong.

E o que pensar de Lance Armstrong? Muitos defeitos, certamente. Mas, como poucos fariam (ou nenhum), assumiu praticamente sozinho todos os pecados da modalidade. Nunca foi um delator em busca da salvação própria, como tantos, contra ele. Tem isto um significado importante no que podemos ver na sua personalidade. Um vencedor, para o melhor e para o pior, distribuindo, como sabemos, créditos na hora da vitória e não regateando cabeças, em grande escala, na hora da derrota. Revela uma força mental inabalável, aquela que infelizmente faltou, ou tem faltado, a outros, e que o fez, de facto, vencer sete Voltas a França. Nesta epopeia de sucessos, teve os seus momentos maus e é aí que os olhos mais atentos vêem a suas reais qualidades de atleta.

Armstrong é, por enquanto, resumido a uma grande novela de doping prejudicial à modalidade. O tempo e a História, por certeza, se encarregarão do contrário construindo uma novela em que isso será apenas um episódio. Tem sido assim em todas as vertentes da vida, não só no desporto. Se se tivesse suicidado, tido uma morte desgraçada ou fosse possuidor de uma série de problemas mentais, por certo, os seus registos históricos e mediáticos já seriam diferentes. Mas continua de pedra e cal assumindo os seus pecados e, os dos outros. É o que o distingue. Ainda assim, nos próximos anos vai continuar a ser, como ele próprio já disse, aquele de quem não se pode falar, o Voldemort, da saga Harry Potter.
Luís Gonçalves

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