Ciclismo muito perto de de um ataque de nervos

O ciclismo profissional dos vários escalões, existe, porque existem patrocinadores. Ponto final. E os investimentos que são feitos todos os anos, terão que ter retorno positivo, senão, não serão um bom negócio. Os patrocinadores assinam contractos com as equipas com a obrigatoriedade de cumprirem todos os requisitos obrigatórios pela UCI, onde não falta uma Garantia Bancária para salvaguardar alguma eventualidade de não serem capazes de os cumprir. Essa Garantia é de determinado valor e servirá para cumprir todos os compromissos até se esgotar esse valor. Depois, podem ou não continuar a patrocinar a equipa negociando com os ciclistas e todo o staff.

Aconteceu isso agora com a CCC que reduziu em 50% as despesas com ordenados o que quer dizer que a garantia bancária não foi activada para a CCC por ter havido acordo e com isso a licença ficar limpa para novas parcerias. Os ciclistas preferiram isso do que lhes acabar a época agora. Assim muitos deles irão ter hipóteses de arranjarem contratos com outras equipas. Era habitual no primeiro dia de descanso no Tour acontecerem os primeiros contactos com os empresários e até mesmo com os ciclistas. Mas tem havido ao longo da história mudanças de patrocínio a meio das épocas. Um dos casos mais badalados aconteceu em 2019 foi a licença da Sky ter sido assumida pela gigante Ineos, que conseguiu manter os 45 milhões que a equipa estava habituada.

Agora com os efeitos nefastos da pandemia, não se saberá qual será o futuro de muitas equipas e dos seus patrocinadores. Penso que vai depender do ramo de negócio de cada uma. A CCC polaca que se dedica ao comércio do retalho de sapatos, com o fecho de centenas de lojas em todo o mundo, por imposição dos respectivos governos, o negócio teve uma queda brutal. Pode até a CCC arranjar uma solução para reverter o seu negócio e continuar a manter uma equipa profissional de homens e mulheres, com apoios de outros patrocinadores.

Mas há outros patrocinadores que provavelmente passarão dificuldades com os seus negócios. Por exemplo, a Astana vai ter dificuldades porque depende de uma série de empresas estatais algumas ligadas ao petróleo que se sabe está em queda. A Mitchelton é uma grande produtora de vinhos e o consumo de vinho decaiu muito, devido ao confinamento, e ao medo das pessoas em se deslocarem aos supermercados. A Sunweb que se dedica ao turismo também é de alto risco. A própria Deceuninck e da sua parceira Quick Step, que se dedicam a produtos para a construção civil, uma dedica-se a portas e janelas e a outra a pavimentos. A construção será também um ramo de actividade que vai passar um mau bocado. A NTT também não parece ter grande capacidade sem outros parceiros fortes. Os países árabes que vivem do petróleo, onde se incluem a UAE e a Bahrain, são uma incógnita, porque nunca tiveram que vender o crude a valores tão baixos, e pouco sabemos sobre como funcionam as suas economias e de que outras matérias-primas podem ser tão rentáveis para sustentar esses países. A Education First e os seus cursos de inglês também não me parecem com muito futuro. O mesmo acontece à Israel Start-Up Nation, se o magnata que financia a equipa, perder milhões em bolsa e com as suas múltiplas empresas.

As marcas de bicicletas podem vir a ter uma grande procura, nos modelos para cidade e sobretudo as eléctricas que devem a vir a crescer muitíssimo a sua procura. Isso ajudará o ciclismo e a modalidade. Mas não serão só as equipas a sofrer com esta situação do ciclismo à beira de um ataque de nervos, a UCI – União Ciclista Internacional e as respectivas Federações Internacionais estão a perder muitos euros por causa de falta de provas. Os milhares que entram nos cofres da União Ciclista Internacional provêm dos direitos televisivos, dos organizadores das provas, das equipas, das multas e multinhas, e de muitas coisas mais. Em 2021 uma nova era no ciclismo começará e será a hora de se contarem as espingardas e as vítimas desta guerra, que terá muitas batalhas, e que muitos lhe chamam a 3ª grande guerra. Mas, talvez daqui a uns meses a nossa vida, e das dos outros, voltar ao normal, mesmo com um Covid-19 pouco agressivo pelo meio.

Jorge Garcia

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