Antes do adeus

O prazo para apresentação de candidaturas ainda é extenso, mas, tudo leva a crer que a direcção encabeçada por Delmino Pereira terá mais um passeio eleitoral.

Portanto, espera-nos mais um mandato, o definitivo, do actual presidente da UVP/FPC. Pela experiência de anos anteriores sabemos com o que contar. Ninguém é livre de críticas, nem ninguém faz tudo bem, mas as sensações são relativamente convergentes no sentido de que os mandatos até aqui têm sido dentro da normalidade.

Mas, embora alguns digam não, por ainda ser cedo, não fará mal a ninguém começar a projectar o futuro. A modalidade precisa disso. A nível geral, como temos assistido, os acontecimentos são cada vez mais rápidos. Será necessário começar a sustentar o que virá depois, para que a passagem de testemunho seja pacífica e benéfica à modalidade.

Neste sentido, a opção de sucessão que tem sido tomada nos últimos anos, é uma opção interna. Dirão alguns, em desacordo, que mais do mesmo, dirão outros, que mais vale a certeza e a segurança de sabermos o que será mais do mesmo. Duas opções válidas.

Mas não deixa de ser estranho existir cada vez mais desinteresse pela organização do ciclismo, fora da estrutura federativa. Diremos até que, com alguma voz de tragédia à mistura, só pode ser péssimo para a modalidade. Qualquer modalidade que pretenda projectar-se sustentadamente para o futuro terá de ter debate de ideias, sem medo que isso aconteça e sem desconsiderar, nomeadamente, as opiniões de base.

É certo que os regulamentos federativos, que não são mais do que valências do direito administrativo, são praticamente um corpo regulamentar único. Ou seja, um modelo que se aplica a todos. Mas não será por isso que não possam estar um pouco caducos. Bem, um pouco fora da caixa, a nossa federação até tem sido comprovadamente má a inventar regulamentos. Nalguns casos mais valia, de facto, copiá-los de bons ou razoáveis exemplos, que já foram pensados com mais prudência, nomeadamente no futebol, tantas vezes criticado por nós.

Voltando à caixa, a direcção é eleita pelos delegados na assembleia geral. A mesma direcção que aprova o regulamento eleitoral da assembleia geral. Ninguém pode exceder três mandatos consecutivos, excepto os delegados por inerência, em suma, os presidentes das associações regionais. As mesmas associações que regateiam apoios com as sucessivas direcções. Entre 76 delegados, as associações, pelos mais diversos factores, nomeadamente considerando a presença de clubes, ocupam a parte de leão, reservados que são 12 lugares para os representantes dos ciclistas, 6 para os treinadores, 6 para comissários e 2 para organizadores.

Naturalmente que as associações são parte essencial do que é o ciclismo. Mas não deixam de ser, ainda assim, parte administrativa do ciclismo, uma parte influente da estrutura federativa, comandadas, há anos, pelas mesmas pessoas, tantas vezes também porque não aparece mais ninguém. Também aqui, o tal perigoso desinteresse externo.

Com este contexto tornam-se cada vez menos influentes as opiniões de base o que leva, inevitavelmente, a um certo, quero lá saber, do comum elemento federado! E tantas vezes opiniões com um grau de validade impressionante. Do mais letrado ao menos letrado. Com frequência do menos letrado que é demasiadas vezes desconsiderado pela estrutura federativa. Não toda, certamente, mas pela estrutura federativa que se considera chique a valer.

Em suma, não fará mal nenhum, bem pelo contrário, a breve prazo começar a ponderar o que se espera dos próximos anos. Nesse sentido seria útil algo que trouxesse alguma frescura de ideias. Não se quer um pára-quedista como por vezes sucede nas associações regionais, com as desvantagens óbvias que isso traz. Seria bom aparecer alguém que saiba o que é o ciclismo sem estar ainda possuído de toda esta estrutura administrativa. De preferência dando voz às bases. Nem que fosse apenas pela discussão de ideias. É tantas vezes a abanar a árvore que caiem os melhores frutos. Frutos que podem ser aproveitados por todos. E para isso não valerá a pena esperar pelo “depois do adeus”.
Luís Gonçalves