Vai ficar tudo bem ?

O tão aguardado calendário da UCI, foi finalmente revelado. E penso que foi uma agradável surpresa. E antes até de comentar o que está previsto – sim, porque no contexto atual, só pode ser uma proposta de calendário – tudo vai depender da evolução da pandemia. Primeiro, a UCI fez um excelente trabalho com as várias Federações de Ciclismo dos países onde se vão realizar as provas e segundo, a força da organização da ASO que com o seu prestigio, consegue tudo, até talvez uma chegada à Lua, quem sabe, no futuro.

Toda a gente que vive intensamente a paixão pelo ciclismo, as centenas de famílias que dependem da modalidade, pela ligação a ciclistas profissionais e das centenas de pessoas que trabalham para o ciclismo, o dia de ontem deve ter sido um dia pintado de arco-íris e com a legenda: vai ficar tudo bem. A frase que nunca simpatizei, porque sempre me apeteceu colocar um ponto de interrogação no final da frase. Mas, confesso que senti ontem um certo alívio, depois de tantos dias de incertezas para a modalidade e ver que provavelmente se iria destruir tudo o que foi feito ao longo de vários anos, para levar o ciclismo aquilo que é: um dos mais espetaculares desportos do planeta. Uma modalidade que não é apenas dos ciclistas, não é dos patrões ricos das equipas, é muito mais do que isso, é o desporto do povo.

Analisando então o calendário: temos as três grandes provas, com o Tour e o Giro com a duração de 23 dias, com dois dias de folga incluídos. E a Vuelta, com 20 dias e dois dias de folga incluídos. Depois temos o privilégio de ter os 5 monumentos: Milan-Sanremo, Liège-Bastogne-Liège, Volta à Flandres, Paris-Roubaix e a finalizar como sempre, o Giro de Lombardia. Ao todo são 23 provas World Tour, com cerca de 110 dias de prova efetiva. E temos confirmados os Mundiais de Estrada na Suíça, entre Aigle e Martigny, e ficam em duvida alguns Campeonatos Nacionais, porque já há países a não autorizarem as suas provas e ainda a grande duvida do Campeonato Europeu de Ciclismo de Estrada em Trento-Itália. Temos portanto 15 provas de um dia e 5 provas de mais ou menos uma semana.

As equipas WorldTeam devem começar a reunir e a planificar os 3 meses de provas, não de forma física, porque os ciclistas estão espalhados pelo mundo e com níveis de preparação diferenciados. Alguns já começaram esta semana a poder treinar na estrada e outros só o poderão fazer dentro de dias. Os estágios em altitude devem começar no mês de Junho para os ciclistas que farão os Grandes Tours. Para os das clássicas devem rumar a Itália, França e Belgica para os treinos técnicos e de evolução. As corridas de uma semana seguirão os treinos habituais de alta montanha e média, endurance e e series de contra-relógios.

Quanto à situação financeira de algumas equipas que foram apontadas com problemas financeiros e corte de salários aos ciclistas e a dispensa do staff, entre outros, nomeadamente apontados à polaca CCC e a americana da Education First, e não sei se mais alguma, esta janela que se abriu, se calhar vai permitir algum reforço de patrocinadores de última hora para salvar algumas equipas em agonia. Penso que o esforço que será feito pelos patrocinadores irá ter um retorno muitíssimo alto. Para isso, com certeza os patrocinadores vão pedir mais e mais empenho aos seus ciclistas e isso trará grande competitividade em todas as provas. Os mais novos vão querer aparecer, os que estarão em final de contrato também e as estrelas vão querer brilhar todas. O único senão: se todas as provas se realizarem, muitas serão feitas em condições atmosféricas muito variadas. Se calhar vamos ter muita chuva na Vuelta e um Paris-Roubaix debaixo de um grande vendaval. Quem ganhará com isso? Serão os espetadores, como é evidente.

Para finalizar, espero que tudo seja feito para que as corridas tenham público. É isso muitas vezes que motiva os ciclistas, que entusiasma o publico e que faz que os patrocinadores tenham visibilidade. Esperemos que o Governo do Senhor Macron seja mais colaborante, e que todas as entidades de saúde publica que estarão envolvidas, consigam arranjar soluções para que as provas se realizem com a máxima segurança para todos. E termino com a frase que odiava e que comecei a acreditar: vai ficar tudo bem. Vou fazer figas. E não falei no vírus, finalmente.

Jorge Garcia