A âncora de Portugal

Passámos da emergência para a calamidade. As expressões até serão enganadoras. Em português, calamidade parece pior do que emergência. Mas no direito não é. Por isso uma tem previsão constitucional e a outra não. A calamidade deve ter surgido no âmbito da protecção civil porque a emergência já estava esgotada e reservada à Constituição. Foi uma questão de inventar um estado qualquer, não generalizado e bem mais brando.

Mas entre a emergência e a calamidade, há um estado que esse sim se instalou, sem previsão legal, mas que não é de menos importância. Diremos que o estado de ansiedade. É isso que todos vivemos agora, sem saber bem o que esperar do futuro.

Pelo ciclismo, fazem-se esforços para contornar essa ansiedade. Há planos para a retoma. Por cá, aparentemente, assiste-se a uma vontade generalizada de reconstrução de um calendário em 2020. Vontade generalizada que alberga excepções, mas que por causa de um, ou dois, não deixará de ser generalizada.

A possibilidade de retoma está pensada essencialmente para o ciclismo profissional, acto que se compreende. Deixa contudo antever que, se a retoma profissional for favorável, poderá existir lugar para a formação. Seria muito bom que assim fosse.

E, se já sabíamos que a Volta a Portugal é a âncora (está na moda) mais pesada do ciclismo português, nestes tempos de estado de ansiedade, vem a confirmação fatal. Achamos todos imensamente interessante a Volta ao Algarve e achamos todos que é uma prova que deve manter o figurino porque dá alguma importância na modalidade a Portugal, sendo uma boa bandeira internacional. Mas o certo é que, para o ciclismo português, ciclistas, o nosso tipo de patrocinadores, equipas e Federação, bem ou mal, isso daria outra discussão, a Volta a Portugal é imprescindível.

Vejamos que estamos em ano em que tivemos Volta ao Algarve, mas o pormenor decisivo referenciado por todos continua a ser a Volta a Portugal. Não sendo ingénuos, mesmo a nível financeiro federativo.

Não sendo ingénuos também, a Volta ao Algarve, não dá assim tanta exposição internacional ao jovem ciclista português. Enfim, nem a Volta a Portugal, mas quanto a esta não tem sido assim vendida. A transmissão para dezenas de países surge do interesse de ver Nibali, Evenepoel e, sobretudo, publicitar o Algarve. É bom competir com essa gente, mas, mais jovens ciclistas portugueses foram lançados pela Volta ao Alentejo, ou outras competições, sumariamente, pelo bom trabalho das equipas, alavancado em participações internacionais nas selecções jovens. É só uma questão de fazer as contas.

E quando comparamos os dados nacionais (os mais importantes para nós) de audiência média diária entre uma e outra competição, faremos bem o resumo da importância âncora, para nós, de cada uma das competições. Nesse contexto, a Volta a Portugal é esmagadora. E esse número faz despertar consciências adormecidas, o resto do ano, na RTP, à excepção, claro, de três ou quatro pessoas, que sabemos bem quem são e que estão despertas e prontas o ano inteiro.

Naturalmente que um calendário só com a Volta a Portugal se tornaria desinteressante, embora, em bom rigor, uma boa parte da população nem sequer se apercebesse disso. Porém, não deixaria de ser desinteressante.

Mas a Volta a Portugal, como parte integrante da cultura popular nacional, um referenciado fenómeno social, pode ter uma boa palavra a dizer no mapa próximo do que é a mensagem de fim de ansiedade em que todos os portugueses vivem. Um momento de libertação de problemas ao ver uma competição que faz parte do imaginário nacional, uma ligação do país, levar, pela passagem, que não fará mal a ninguém, um momento de pura diversão levado a todos, do interior ao litoral, numa abrangência territorial e social que pode servir para a transmissão das mais valiosas mensagens de utilidade ou de esperança.

É importante para a sustentabilidade das equipas. Não são competições na América do Sul ou na China, sem esta dimensão social que a Volta tem e que agrada aos nossos patrocinadores, que sustentam os projectos. Bem pelo contrário, algumas aventuras internacionais, neste tempo e noutro tempo, têm-se convertido em péssimos resultados, sobretudo, para os ciclistas, com consequências financeiras graves e nada dignas para a modalidade. Não é uma questão de pensar pequeno. É uma questão de assumir os compromissos. Só assim se pode, depois, pensar maior.

Muito planeamento, muita dedicação, alguma e sempre precisa sorte, podem fazer da Volta a Portugal, quase, o evento desportivo do ano, sem necessidade de esforçar muito o nível internacional. Não é preciso, nem tem sido preciso. Depois, o futuro, veremos. Por ora, é bom que se lance bem a âncora, para que haja alguma esperança para o ciclismo português e para que, ancorados pelo sucesso da Volta, possa existir, em 2020, mais ciclismo, da formação, aos profissionais.
Luís Gonçalves