Marco Chagas e o ciclismo saloio

Como desde sempre ouço com atenção algumas das figuras da modalidade, gente de estórias, história e muita experiência. Nos últimos tempos, contra minha vontade, à distância. Mas ouço na mesma. No contexto, embora ouça toda a gente e formule a minha opinião, há sempre uma ou outra figura da modalidade, não só pela forma como se exprimem mas pelo conteúdo, que tem a predilecção dos meus ouvidos. E, com a tal atenção, tenho assistido a um Marco Chagas, quanto a mim, demasiadamente pesaroso num tempo que precisa de esperança, ou, mais correcto, de uma mensagem de esperança.

Vejamos. Sem qualquer tipo de ofensa, o “ciclismo saloio” foi expressão reservada à célebre Volta de 1976, dada a confusão, de vária espécie) e a quantidade de amadores na prova.
E em 1976 um jovem de 19 anos chamado Marco Chagas participava na Volta a Portugal, cumprindo, certamente, um sonho. Com ciclistas, em larga escala oriundos do Sporting, que tinha então suspendido a modalidade foi, para colmatar essa suspensão, criada por um fã da modalidade das cercanias de Lisboa uma equipa que se convencionou chamar de Costa do Sol.
Segundo consta, receberam um subsídio de dois meses e não mais viram dinheiro. Pouco tempo antes da Volta eram os ciclistas que pediam apoios pela zona da Venda do Pinheiro, na indústria do mármore, onde existiam (e existem) amantes da modalidade, e do Sporting. Foi, também assim, que foram para a Volta.

Na Volta a Portugal, num dos carros de apoio, um tio do Marco Chagas que abandonou o táxi e o café em Pontével, para integrar o que agora seria, mais luxuosamente, o staff da equipa.

Nessa mesma Volta saloia, com quinze etapas (algumas divididas em sectores) para a Costa do Sol, os alojamentos não estavam marcados, sendo portanto, chegar e ver onde se ia dormir e comer.

Mesmo assim, o jovem Marco Chagas, foi sexto da geral, e venceu duas etapas. Por certo, não mais se esqueceu da etapa que ligou Évora à Sertã. O resto, é pura história da modalidade.

Episódios impensáveis hoje, ninguém dúvida. O ciclismo já não se compadece com muitas das situações descritas. Mas, na essência, o que está presente é um exemplo de tenacidade e motivação a que recorro muitas vezes para inspirar os jovens a suplantar dificuldades próprias da modalidade, e da vida.

E, em tempos difíceis, nada melhor que uma mensagem motivadora, qualquer que seja a situação que enfrentemos ou venhamos a enfrentar.
Luís Gonçalves