Curtas e rápidas ou boas e quentinhas

CURTAS E RÁPIDAS

Diziam que Oleg Tinkov era tolo. E de facto tinha a sua boa dose de ideais desfasadas do contexto da normalidade. Mas é um bem sucedido homem de negócios e há muito que viu que as verbas monetárias que circulam pelo ciclismo estão mal distribuídas. São quase de sentido único.

Quase, porque circulam na UCI e em poucos organizadores com a ASO à cabeça. Entidades com receitas a mais, à custa do esforço dos outros, sem nenhuma repartição equitativa. E aqui a UCI é rainha. Recebe, recebe e dá muito pouco. Mesmo muito pouco. E todas as federações nacionais patrocinam isso. Já sabíamos. Mas as fragilidades estarão cada vez mais a nu.

Enquanto decorre a novela internacional, com episódios definitivos nos próximos tempos, e a UCI acha que é um Estado, em Portugal tenta-se retomar a actividade desportiva com a normalidade possível. É imprescindível, e não é uma questão menor. Pode não ser a maior, mas não é menor. A função social do desporto, e das associações desportivas, é extraordinariamente relevante. Num aparte, certamente que até a ministra francesa do desporto pensaria de forma diferente, se ainda fosse desportista. Está num governo fraco, e o breve tempo o dirá, porventura da pior maneira para a França e talvez para a Europa, mas não deixa de ser uma traidora ao que a catapultou e lhe deu de comer.

Por cá, reuniões a dois tempos. O futebol, em cerimónia de chefes de Estado, e os outros. Pelos outros, também o ciclismo, representados pelo COP. Muitas ideias, boas ideias, algumas que exigirão uma adaptabilidade rigorosa às novas situações, nomeadamente em relação ao treino, uma importante proposta de redução de custos com o policiamento e, sobretudo, uma vincada vontade de regressar com todas as modalidades. Mas não somos nós, desporto, que decidimos. Estamos violentamente sequestrados de vontade.

Incidência especial no desporto profissional, o que se compreende, sem, por enquanto, esquecer a formação. De forma diferente, um pouco empurrada para um canto, mas mais vale algo que nada. O nada seria trágico no futuro próximo. No essencial, perdia-se, a tal função social tão relevante e que o Estado não consegue, nem nunca conseguirá, assumir. Idêntica função social que a escola presencial, e os professores, têm, e um computador (para os que o têm) nunca terá.

Há dias, de bicicleta em prática isolada, cruzei-me com o Manuel Ferreira, um “velho” que foi ciclista nos seus tempos de jovem. Tem agora, porque é “velho”, os seus 82 anos (se não forem 82, são 81…). Dava a sua volta de bicicleta habitual, à antiga, com boné de corredor, no caso, já bem desbotado, do Recer-Boavista e um equipamento, mais roxo do que azul, da Ruquita-Feirense.

Perfil magro, imensamente lúcido, saudável, que lhe permite fazer vários quilómetros com médias de fazer inveja a muita juventude. Está, porém, no grupo indicado pelos que dizem que é preciso esquecer a Constituição da República Portuguesa (doravante, pela pouca importância que tem, apenas, CRP).

Até jornalistas (tive que rever as imagens e o som três vezes!), dizem que é preciso esquecer a CRP. Talvez, para a eficácia de pensamento, seja necessário cortar-lhes a palavra. Mudariam de opinião? Certamente.

Tempos que serão de inevitável confusão com decisões económicas e sanitárias imprevisíveis, mas já com decisões legais de incompetência, que, se espera seja apenas isso, incompetência. Ou isso, ou não saber bem o que fazer.

Tempos que teremos de ultrapassar com alguma solidariedade, prudência, consciência, mas sem perder o espírito crítico.

Diaboliza-se quem tem um pensamento mais aberto. Diz-se logo que é de inteligência duvidosa ou, pela moda, assintomática. E para que serve isto? Para que, como os outros agentes da sociedade farão, os agentes desportivos, em união de esforços, construam um pensamento fundamentado e o defendam com unhas e dentes. Pode não parecer mas é uma questão de sobrevivência. E não hajam dúvidas que dentro de pouco tempo, mais do que um vírus, estaremos a debater conflitos de interesses com todas as validades de cada argumento. Espera-se, que de forma civilizada… e com liberdade de opinião.
Luís Gonçalves