Uns e outros

O título desta crónica é a tradução de «Les Uns et Les Autres», um filme francês que fez grande sucesso no início dos anos 80, conta a história de quatro famílias que em países diferentes, se tiveram que adaptar ao que seguiu à Segunda Grande Guerra. É um filme que se adapta perfeitamente ao que agora estamos a viver.

E não foi por acaso que escolhi este título. Começo a falar de um filme e estou a introduzir o tema para a novela desta primavera que se chama Tour de France. Um dos maiores espetáculos desportivos da Europa, no que diz respeito ao ciclismo de alto nível e que devido à pandemia que ocorre em todo o mundo, avança e retrocede quase todos os dias. Hoje são dias diferentes, porque sabemos um pouco mais sobre o novo coronavírus. Sabemos que se usarmos máscaras e luvas e desinfetarmos as mãos, cumprir e fazer cumprir a distancia de segurança, vamos conseguir viver como sempre e conviver como sempre. Está na nossa cabeça a luta contra o Covid-19. Os países tem que se abrir à economia e todos temos que colaborar para que isso aconteça e é tão simples colaborarmos. É apenas cumprir escrupulosamente as regras que foram criadas pelas autoridades de saúde.

Vamos então à novela do momento, no que toca ao ciclismo, e ao ponto da situação atual:

Está marcada para 29 de Abril uma importante reunião que reúne o governo francês, a UCI, a ASO, organizadora da prova, representantes das equipas e dos ciclistas, para discutirem e arranjarem uma solução para a realização do Tour 2020 e a partir daí se remarcarem definitivamente as outras provas para que o novo calendário elaborado pela UCI seja definitivamente acertado. Sinceramente acho que há condições para que o Tour 2020 se realize. E porque é que digo isto? Porque basta fechar os olhos e imaginar o que acontece numa etapa de uma qualquer prova de alto nível do ciclismo, para vermos onde se encontram os pontos mais fracos e se arranjarem as soluções.

É evidente que a partir de agora a realização das provas vão trazer muitos mais custos em termos logísticos. Serão necessárias mais baias de proteção nas partidas e chegadas e para isso, colocar mais policiamento e seguranças. Mandar construir mangas como existem nos aeroportos que liguem para o local da partida e para o final das provas um caminho isolado para os ciclistas se deslocarem para os seus autocarros. Outros pormenores como a ida ao podium e as entrevistas no inicio e no final das etapas, com certeza serão arranjadas maneira de o fazer em segurança. Esta pode ser uma boa solução para a competição. Nada de muito difícil ou impossível. Quanto ao medo da propagação do vírus no seio da caravana parece-me uma falsa questão porque toda a estrutura será testada com antecedência, o staff e a segurança andará com máscaras.

O público na estrada não trará grandes perigos de contaminação, porque se aumentarmos mais um metro de distancia que os separa dos ciclistas, reforçada com mais vigilância e o uso de máscara por parte da assistência, parece-me exequível e credível para convencer as autoridades sanitárias. O público vai entender que tem que se proteger e ser obrigada a um certo distanciamento do vizinho do lado. Penso que a população já interiorizou estas medidas. Os ciclistas, esses, de certeza não partirão para a prova infetados. E os testes não faltarão todos os dias.

Este são os Uns do filme, a parte desportiva. Vamos agora aos Outros, a parte política:

Durante a semana passada a pragmática ministra dos desportos franceses, Roxana Maracineanu, uma antiga nadadora olímpica, nascida na Roménia, declarou num programa televisivo que o desporto não era uma prioridade na sociedade francesa e que não seria o fim do mundo se o Tour de França e outros eventos não forem por diante este ano. Ouvindo isto, qualquer um perguntaria qual é o papel que deve desempenhar um Ministro do Desporto? Quanto a nós deve estar ao lado do desporto e dos desportistas, sendo o veículo de transmissão das estruturas desportivas e o governo, para se arranjarem soluções para todos os problemas que possam surgir no desporto, como é o caso que tem em mãos neste momento a ministra gaulesa. Será que a senhora ministra ainda não percebeu que esta pandemia vai continuar nas nossas vidas durante muito, muito tempo e que a industria do desporto terá que continuar como qualquer outra, à margem da pandemia e no seio dela.

A senhora que até foi atleta de alta competição, deve saber que a não realização do Tour este ano, vai trazer graves consequências para muitas centenas de pessoas que vivem deste desporto e para este desporto.

E ainda falando de França, outra prova que também não está assegurada é o Roland Garros que também se poderá realizar, colocando separadores acrílicos em cada fila de espetadores, diminuindo a quantidade da lotação nos courts para um terço e aumentando o custo do bilhete. Acredito que os estádios enchem na mesma. Arranjam-se mais uns patrocinadores para os acrílicos e resolvem o problema. Quanto ao público, as regras são conhecidas: o uso de máscaras. Quem fala dos courts de Roland Garros, fala dos estádios de futebol. É só reduzir para metade o numero de cadeiras e cria-se um espaço entre os espetadores e umas mascaras com os emblemas do clube, por exemplo, resolvem a situação.

Caro leitor, não entrei em delírio. Apenas dei umas dicas. Também você com certeza terá outras ideias. Partilhe-as connosco. O Jornal Ciclismo agradece. Agradecemos todos.

Jorge Garcia