O milagre da objetividade

Uma sociedade verdadeiramente democrática vive de debates e de partilha de ideias diferentes, boas, más, mas diferentes. Sabemos que, já há muito tempo, é essa uma das razões deste espaço. Sem qualquer tipo de narcisismo, um verdadeiro oásis nacional no que é o trocar de ideias no ciclismo, no meio do seguidismo ou facilitismo que normalmente abunda, da internet, da imprensa, à televisão.

Por vezes, lutas com alguns dissabores, com pressões para se pensar formatadamente, aquela formatação, porque posso, a que nunca estive habituado. A tentação de nos formatar, a nível geral, é cada vez maior e mais perigosa. É a célebre cartilha.

Não sou especial fã de milagres, embora, com frequência apele a alguns. Sou mais seguidor de uma objectividade que alguns até poderão considerar algo crua. Já me aconteceu várias vezes.
E, de momento, a objectividade diz-nos que o Tour tem de ir para a estrada. Podemos inclusivé, num contexto de crise, ter um Tour revolucionário de ideias, como já tivemos outros no passado que, sempre marcaram o compasso do que é o ciclismo. Foi de alguns dos momentos mais difíceis da história que saíram algumas das maiores ideias da humanidade e, por inerência, também no ciclismo. Dariam vários textos.

Tem-se falado muito na digitalização do desporto. De momento, servirá apenas de cuidado paleativo. Um cuidado desinteressante, tendo em conta o que é a essência do fenómeno desportivo. Sou incapaz de assistir a algo irreal e já que tanto se fala disso, até de mais, verdadeiramente sem controlo. Ninguém garante que o fulano tal não tenha, em casa, um auxiliar nos “rolos”, ou que não abusou no “café” nesse dia. Aqui sim, verdadeiramente falível. Como diz o Peter Sagan, é um ciclista real e não virtual. Mas, por ora, compreende-se o cuidado paleativo para os patrocinadores. Contudo, a muito breve prazo, não será evidentemente suficiente.
Por isso mesmo, a bem de todos, é necessário um retorno rápido a uma vida o mais normal possível. E até nem será difícil. Basta que o catecismo da comunicação social acabe, que regressem os debates sobre ser ou não ser penalty e, como todas as outras doenças (e são muitas) que andam por aí, acabamos por desconhecer que existem, sobretudo as silenciosas como as doenças cardíacas ou a diabetes, ou cancerígenas (segundo consta, as que provocam mais mortes em todo o mundo).

O exemplo é macabro, mas, bastará um grande incêndio em Julho com uma ou outra indesejável fatalidade, para batermos palmas aos bombeiros, organizarmos programas em directo de todas as corporações, com recolha de fundos, e voltarmos a chamar nomes feios aos profissionais de saúde, como vinha sendo hábito. Os mesmos que agora aplaudem e fazem videos emocionais, incluindo as televisões. Todos sabemos isto.

Embora não pareça, como em tudo, a aparência de normalidade está a um pequeno passo. Um ponto de vista estatístico (a maior mentira indutiva que existe), um passo mais político do que sanitário. A saúde já foi de facto importante mas já se discute mais política do que saúde. De economia e tragédias económicas empurra-se para a frente. Vamos assumir novos riscos? Claro. A vida é um risco de morte permanente. Conheço tanta gente que morreu de bicicleta, o último dos quais um ciclista bem jovem (18 anos), e não deixo de andar de bicicleta.

A função do “opinador” é, em primeira instância, dar opinião, mas também pode ser induzir. E é tão fácil induzir. Naturalmente, se fossemos a dar a nossa opinião sobre tudo o que sabemos, nada mais nos restava do que vários processos judiciais. É óbvio que não posso expôr aqui tudo o que sei, até por respeito da privacidade de cada um.

Sei apenas que, em 2020, o desporto, o ciclismo, não pode parar, em lado nenhum. A pressão, a indução, é obrigatoriamente essa, por uma forma que pode ser diferente, mas que não pode deixar de existir. E quem está lá dentro, nos meandros da modalidade, sabe isso melhor do que ninguém.

E o Tour, como farol da modalidade, é imprescindível. Não me preocupa a Ineos. É a tal equipa burguesa que, por enquanto, pode resistir a (quase) tudo. Não há Thomas, Bernal, Froome. Há outros. O ano passado só nos lembrámos de Froome na primeira semana. Fez-nos mais falta Contador e esse, já não corre. É óbvio que Froome faz falta, mas, penso que ninguém se incomodaria de ver, só, Nibali, Quintana, Uran, Pinot, Bardet e as surpresas que apareceriam num Tour como não se veria há muitos, muitos anos, já que, Doumolin se autodescartou. Quando Armstrong ganhou o seu primeiro Tour, em 1999, os profetas logo disseram, ganhou porque não estavam lá os outros…

E a Ineos, toma as dores da British Cycling, violada sem apelo nem agravo na sua corrida, pelo Tour, com a marcação das novas datas. Objectivamente é isso, política.

Não podemos esperar milagres indefinidos. É tempo de sermos objectivos e o mundo não pode parar. Com a prudência que aconselha tudo, mesmo tudo, na vida, a resistência de pé e de frente para as questões, assumindo os riscos inerentes, é a melhor homenagem que podemos fazer ao nosso 25 de Abril.
Luís Gonçalves