Os cinzentos dias do confinamento

Sempre que pensamos no Tour de France 2020, acabamos num turbilhão de dúvidas. É tão necessário esse evento para o presente e o futuro do ciclismo, e até como tubo de ensaio para outros desportos com as mesmas características, público nas bancadas e na estrada, como por exemplo a Fórmula 1, o WRC e o WTCR. Estas últimas com passagens por Portugal, eventos promovidos pelas autarquias do Porto e Vila Real, visando a incrementação do Turismo, poderão ter sortes diferentes. A especial do WRC no Porto em Maio foi adiado. O WTCR em Vila Real foi simplesmente cancelado por falta de datas.

O problema de datas pode ser um problema para o ciclismo para este ano, mas não será que não estaremos a subestimar demasiado a pandemia do Covid-19? E estamos todos a viver na ilusão de que vai ser possível realizar o Tour, o Giro e a Vuelta e antes do Tour um Critérium do Dauphiné e por exemplo uma Liége-Bastogne-Liége atrasada.

E será que é mesmo possível fazer três Grandes Tours todos seguidos no mesmo ano, e algumas clássicas de Agosto, até quê? Dezembro? Uma chegada da Vuelta no dia de Natal? Debaixo de neve? E as chuvas? E os ventos fortes? Isto para mim, sinceramente parece-me ficção, tipo Guerra das Estrelas.

Agora voltemos ao nosso turbilhão de dúvidas:

A França mantém o confinamento até 11 de Maio e não permite aos ciclistas saírem de casa para treinar. A Espanha estado de alarme até 9 de Maio e com as mesmas restrições francesas quanto ao obrigatório confinamento em casa quanto ao ciclismo. Os italianos idem.

Os ciclistas WT que estejam confinados nestes países limitam-se aos ginásios, aos rolos e pouco mais. Sem treinos em estrada e estágios em altitude, não creio que será possível à maior parte dos ciclistas escalados para o Tour 2020, estarem nas melhores condições para se apresentarem em Nice no dia 29 de Agosto. Toda a equipa tem que ter a mesma preparação porque senão não vai funcionar como equipa.

A questão agora é esta: será que a Ineos vai arriscar com um Bernal sem preparação adequada, Geraint Thomas de momento sem grandes condições físicas, pelo que se viu na prova Zwift e um Chris Froome que não poderá oferecer qualquer garantia? Sir Dave Brailsford não está habituado a perder a prova ciclista mais importante do mundo e ameaça não comparecer. O que acontecerá às outras equipas, com a renuncia da Ineos? Vão aproveitar a sua ausência para tentarem uma vitória sem os principais favoritos? Estamos convencidos que muitas equipas vão dizer sim e outras vão dizer não. E que Tour de France vamos ter? Será que vai ser muito competitivo ou a ausência das grandes estrelas vão tirar fulgor à prova? E depois ficamos dececionados e vamos chegar à conclusão que mais valia não ter feito nada. O problema é que o Circo não pode parar. Parar pode ser fatal para muitas equipas, patrocinadores e ciclistas.

Tudo isto apostando num cenário otimista, em que o Covid-19 esteja controlado até ao mais ínfimo pormenor. E se daqui a uma semana, 15 dias após a Páscoa, os números de infetados e mortos voltarem a subir em flecha, na tal fase dois que todos já ouvimos falar? Há plano C para o ciclismo? Não creio!

Estamos todos a precisar de ver ciclismo a serio, vê-los montanhas acima, suspender a respiração com os sprinters vertiginosos, fazermos figas para as fugas mirabolantes. O circo do Tour precisa disto. Os patrocinadores mais modestos precisam de se mostrar, porque se não o projeto não tem pernas para andar. Mas para muitos outros patrocinadores os milhões este ano gastos, se calhar estão a ser melhor pensados. A Discovery dona da Eurosport tem as fichas todas apostadas na Home of Cycling. Centenas de colaboradores que vivem dos comentários do Eurosport estão sem trabalho e por isso da minha parte estou solidário com eles.

Não queria, acreditem, escrever estas linhas que não transmitem esperança. Escrever um artigo é emitir uma opinião muito pessoal, mas, ou temos uma visão multidimensional e convidamos os nossos leitores a «verem» o que se calhar ainda não repararam e porque nós reparamos, porque estamos habituados a olhar para todo o lado. Ganhar a credibilidade junto de uma comunidade que vê nas bicicletas uma das paixões da sua vida não é um trabalho fácil para quem opina com responsabilidade de informar, convenientemente. Faço-o, caros amigos e companheiros, convencido que é sempre melhor emitir uma opinião do que ficar calado. Da discussão nasce a razão. É assim a liberdade de expressão. É assim, felizmente no nosso país, que todos adoramos. E devemos um grande obrigado ao Jornal Ciclismo por existir desde 2007 e nos falar de ciclismo de todos os ângulos e formas, de nos contar histórias deliciosas do passado, do presente e imagine-se, do futuro. Sem qualquer custo ao leitor. Apenas pela paixão pelo ciclismo

Como bem nos lembrou um dia destes, o nosso querido Luís Gonçalves, PALMINHAS, PALMINHAS, PALMINHAS, do eterno Neto Gomes, para todos.

Jorge Garcia