Verão de 98

Embora não haja ciclismo, pelo Jornal Ciclismo, vamos informando, opinando e entretendo os leitores, cada um à sua maneira, fã da modalidade. Não se pense que seja uma tarefa fácil, ora pela crítica social que tantas vezes tem que nos mover, ora porque temos que rebuscar na memória situações de puro divertimento ou divertimento histórico.

No contexto, podíamos estar aqui a escrever tratados históricos, que elevariam o nível intelectual do autor e a inveja dos leitores, até o mundo acabar. Isto porque, historicamente, o ciclismo como modalidade desportiva é uma fonte inesgotável de história. Mas, deixe-se isso para conversas de café ou animadas tertúlias ocasionais. Ora, por puro divertimento numa época pouco divertida, partilharei um pequeno episódio pessoal, pelo ciclismo. Um “Summer of 69”, vinte e nove anos à frente.

Andávamos por 1998, ainda eu tinha a mania que era ciclista numa equipa do Norte do país e, enquanto de férias (ainda) escolares por terras familiares, eu e um primo meu resolvemos, porque já éramos fãs de ciclismo, ir ver a etapa da Volta a Portugal que acabava em Portalegre, vinda de Beja.


13 de Agosto de 1998.

Na célebre Volta que partiu de Sevilha, unindo exposições mundiais. Como (mais) jovens que éramos, na noite anterior, apesar de só termos bebido, maioritariamente, água, acordámos um pouco mal dispostos. Apesar disso, não se toldou a motivação, montámos a rapidíssima scooter Gilera (com a viseira dos capacetes abertos para melhor apanhar o ar matinal) e, de perto do Gavião, rumámos à estação ferroviária do Rossio ao Sul do Tejo (Abrantes), onde entrámos no comboio com destino a Portalegre, onde chegaríamos, com calma. Uma calma que infelizmente hoje já não pode existir.

Bem, desconhecia-mos nós então, como é hábito no Alentejo, e pela generalidade do interior do país, que a estação de Portalegre não era, como ainda não é, propriamente, em Portalegre. Pois, fica a meros doze quilómetros de Portalegre, para quem conhece, num percurso árido e em que, no dia, os termómetros marcavam (em Portalegre) módicos 43 graus.

No tempo em que as etapas terminavam mais cedo e não como agora quase à hora do jantar, o autocarro não era solução, pelo horário, e o táxi fora de questão, por razões monetárias (sem ser muito para trás no tempo, certo é que o dinheiro ia contado, e pela normalidade de então, não tínhamos cartão multibanco, nem telemóvel).

Restava a opção de tentar chegar a pé a Portalegre, sempre sabendo que, não conseguindo, a Volta passaria por nós no IP2. Tentar chegar a pé e ir pedindo boleia. E de facto assim foi. Sorte? Sim. Ao fim de cerca de 3 Km, sem água, uma alma caridosa. Um carro dos Bombeiros Voluntários de Portalegre! Foi a única vez que andei no carro dos bombeiros. Saímos à grande, no centro da zona de meta!

O italiano Marco Serpellini, que venceria a Volta nesse ano, impôs-se em Portalegre a Wladimir Belli e Vitor Gamito, segundo e terceiro classificado respectivamente. Jan Svorada, sprinter checo que ganhou no Tour, nos Champs Elysées, foi o primeiro camisola amarela dessa Volta, com a vitória em Sevilha. Mas em Portalegre o “amarelo” era o algarvio Pedro Lopes. Amarela conquistada numa fuga na segunda etapa que terminou por terras algarvias, em Loulé.

No dia seguinte, o famoso contrarrelógio entre Portalegre e Marvão, onde, dois anos depois, Gamito ultrapassava Moller. José Azevedo, da Maia-Cin, era o vencedor, mas, o estiloso, Pedro Lopes (LA aluminios/Pecol/Águias de Alpiarça) mantinha, ainda, a amarela. Depois, mais uma etapa que partiu de Portalegre. Três dias de boas memórias para Portalegre e para uma Volta com catorze dias.

Dessa Volta também recordo com viva memória o autocarro da Festina, então, algo impensável para nós e partilhar um aperto de mão (quando se podia) com um ciclista de um estranho país, o Cazaquistão, chamado Kivilev. Malogradamente, poucos anos mais tarde, daria origem a uma pequena revolução no ciclismo com a obrigatoriedade do uso do capacete. Faleceu vítima de queda numa etapa do Paris-Nice.

Melhor memória da caravana da Volta e do “Tutto a Mille”, do nosso amigo italiano que vendia produtos relacionados com a Volta (t-shirt, meias, boné e mais umas bugigangas… que guardo como relíquias), tudo a mil escudos.

Muitos jornalistas, muita gente em convívio, grandes caravanas, circos montados no mesmo sítio, porque assim tinha de ser, num país que era mais distante entre si, mas onde a proximidade tinha mais relevância. Saudosas Voltas. Acima de tudo pela ingenuidade que ainda tinha em relação aos meandros do ciclismo. Os meus olhos maravilhavam-se apenas com o que viam e não com o que alcançam agora.
Palminhas, Palminhas, Palminhas…
Luís Gonçalves

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