Um dia histórico e heróico para Anquetil

Tour 65 Anquetil Bordeaux-Paris blog

Desporto de paixões, o ciclismo ao longo da sua história teve várias rivalidades, entre ciclistas, normalmente, do mesmo país e que acabavam por dividir o povo, no apoio do seu favorito.

Fosse, por questões político-religiosas, o caso de Coppi e Bartali ou por mera simpatia, o certo é que uma das maiores rivalidades conhecidas por todos, foi a que opôs Anquetil e Poulidor. Um e outro tive o prazer de cumprimentar.

Jacques Anquetil num Mundial, na Austria, já algo combalido com a doença que o vitimaria, um ano depois em 1987, de cor pálida, simpático mas algo reservado, num aspeto bem diferente de Poulidor com quem tive o prazer de conviver durante os quatro dias de um Tour de Poitou Charentes . Um Poulidor de cor rosácea, simpático e a extravasar comunicação, com quem compartilhei, no paddock da prova, à partida, umas ostras e um vinho branco, que ainda hoje recordo com saudade.

Naqueles tempos longínquos, falamos dos anos 90, a forma de receber dos franceses estava muito acima daquilo que poderíamos pensar. Nas partidas, o serviço de catering era algo fora do normal, para quem no nosso país, nem uma simples máquina de café tinha. Bom, mas sem nos desviarmos do nosso móvel principal, voltemos à rivalidade entre Anquetil e o popular Poupou.

Anquetil nasceu em 1934, faleceu em 1987 e foi um dos poucos ciclistas que conseguiu vencer as três grandes provas por etapas. Contrarrelogista famoso, venceu por várias vezes o Prémio das Nações, na altura considerado a prova mais famosa do mundo, nesta especialidade.

O primeiro era um vencedor nato. Anquetil venceu cinco Tours, dois Giros, uma Vuelta, grandes clássicas, foi recordista da hora, enfim, foi o melhor ciclista num período entre 1957 e 1965, mas não era o ciclista mais popular de França.

De outro lado da barricada. Raymond Poulidor, com o seu ar bonacheirão, era um grande ciclista, mas contentava-se sempre com o segundo lugar, quase sempre atrás de Anquetil. Quedas ou azares foram, muitas vezes, motivos para que o segundo lugar fosse dele e, talvez por isso, o povo francês aplaudia-o com vigor e, muitas das vezes assobiava Anquetil.

Desmoralizado, Anquetil não escondia a sua tristeza por esse facto, era o melhor, mas não era o mais aplaudido e adorado. Em 1965, já quase no final da sua carreira ascendente, viria a fazer um memorável Dauphiné Liberé, ganhando três etapas, e relegando Poulidor, novamente para o segundo lugar. Mas os assobios ao longo da prova foram muitos.

Astuto, exuberante e homem de grandes ambições, Raphael Geminiani, o seu diretor desportivo, tentou convencer o seu pupilo Anquetil que havia uma forma de ultrapassar aquela situação, com um feito heróico que era participar no Bordéus-Paris, a prova mais longa do mundo com os seus 600 kms . O Dauphiné terminou num domingo e o Bordéus – Paris, começava logo no dia a seguir, às 2.30 da madrugada.

O início da última etapa do Dauphiné foi antecipado em uma hora para facilitar a viagem de Jacques Anquetil a Bordeaux. Às 18 h 52, descolou do aeroporto de Nîmes-Garons, a bordo de um Mystère 20 disponibilizado pelo Estado, sob as instruções do Presidente Charles de Gaulle, chegando Bordeaux-Mérignac cinquenta minutos depois, e às 2:30 da manhã, era um dos doze ciclistas a partir para o Bordeaux-Paris, apresentando uma feição “cansada e preocupada”. Apesar da noite, o público estava presente na beira da estrada para incentivar os ciclistas. Ao amanhecer, Anquetil deu mostras de querer abandonar, valendo-lhe a determinação de Geminiani.

Os últimos 300 quilómetros eram feitos atrás de um derny, uma espécie de Velosolex, de forma a cortar o ar, permitindo atingir velocidades entre os 50 e os 60 kms/h. O que foi a corrida, podemos ver no facebook de Jornal Ciclismo e vale a pena perder tempo.

Neste dia memorável, Anquetil reconciliou-se em definitivo com o povo francês. O seu feito foi considerado histórico e heróico. Calcula-se que um milhão de franceses aguardou a chegada dos ciclistas em Paris.

J.Santos