As crises de 1969

A 18 de Agosto de 1969, durante a 32ª Volta a Portugal, à sétima etapa (de 27) que ocorria entre Bragança e Vila Real, dá-se um único até então e histórico dia na competição. Não por ter sido uma etapa repleta de animação, mas simplesmente porque não chegou ao fim.

Os protestos dos corredores de bicicleta já tinham episódios anteriores. O motivo, para além de algumas multas, a redução dos prémios atribuídos pela organização se não fossem respeitadas as médias mínimas previstas no regulamento.

Mas com os protestos a subir de tom, nessa sétima etapa, o ritmo era verdadeiramente de passeio. Surge nesta etapa, que ia dando para tudo, a célebre imagem de Agostinho de cigarro na boca e sombrero na cabeça. O director de prova, Aristides Martins, ia dando avisos. Ignorados pelo pelotão. Até que, pelos lados de Murça, ao quilómetro 76, a etapa é definitivamente encerrada, gerando confusão geral.

Confusão que acabou por ser suavizada, dias depois, com a intervenção de uma empresa do ramo têxtil (Sociedade Têxtil Baiona) que reforçou o prémio final e também, por um ainda jovem Sousa Cintra, que prometeu ao vencedor uma quinta no Algarve. O ciclismo e as gentes do ciclismo, além das proibições, acabaram por encontrar solução e a Volta de 69 retomou a sua normalidade.

Bem, certamente que Sousa Cintra, como sabemos ferrenho e ilustre sportinguista, há-de ter pensado que a Volta nunca escaparia ao Sporting-Gazcidla, pelas pernas de Joaquim Agostinho. A questão é que, por causa de um controlo positivo, de primeiro, Agostinho cairia para oitavo na geral final da Volta. Há altura os controlos positivos podiam dar apenas penalização de tempo. Julgo que foram quinze minutos.

Assim, a vitória caía nas mãos do segundo classificado, Joaquim Andrade, do Sangalhos, que, obviamente, para além do acréscimo de 25 contos subsidiados pela tal empresa têxtil, reclamou também a “quinta”, no Algarve. Mas foi uma tarefa árdua, a reclamação do prémio prometido já que, Sousa Cintra, foi oferecendo séria resistência.

Nestas coisas de clubes, acabou por ser a intervenção de dirigentes do FCPorto que resolveu a contenda, equipa para onde o feirense Andrade se mudou, já em 1972. E o terreno (e não nenhuma quinta), lá está, em Vila do Bispo, tendo ainda como proprietário Joaquim Andrade.

Esta Volta de 69 foi conturbada, mas, apesar de tudo, acaba por nos dar das Voltas mais interessantes em episódios. Vem também daqui o famoso anúncio da Sumol, patrocinador oficial da prova que, tendo que responder às declarações de Agostinho, tentando justificar o seu controlo positivo dizendo que “tinha bebido apenas um Sumol”. E a Sumol anunciou: “Sumol, o verdadeiro doping… mas de saúde!”.

Anos complicados também no país, com a famosa crise estudantil, já muito inspirada no Maio de 68, e aproveitando alguma abertura de regime. O rastilho, foi pequeno, mas tinha razões mais profundas. Cortar, numa cerimónia pública a palavra a Alberto Martins, então dirigente da academia de Coimbra. Está inusitadamente próximo, o dia. Foi a 17 de Abril de 1969, num rastilho que gerou, por exemplo, uma célebre final da Taça de Portugal entre a Académica e o Benfica. Final em que o Presidente da República (Américo Tomás) não entregou a Taça, como era, e ainda é, hábito.

Ano de crise, e de crises, que nos levam a pensar que ás vezes o mais fácil para contornar problemas é proibir. O difícil é resolver sem proibir. Mas é aí que se vê quem é realmente competente e quem não passa de entertainer político. Não queremos chegar à total e indesejável anarquia do “é proibido proibir”, mas, em regimes democráticos, ao proibir que também é necessário, mas, proibindo o menos possível, sobretudo em liberdades essenciais. Será cada vez mais urgente pensar em soluções e menos em proibições. Ou isso, ou ficamos todos (mais) malucos, e pobres.
Por fim, em clausura monástica, boa Páscoa a todos os leitores, que professam a fé católica e, como somos todos titulares de direitos, um bom Domingo de estado de emergência a todos os outros.
Luís Gonçalves