Gino – o Pio

O italiano Gino Bartali é um dos ícones do ciclismo mundial. Não só pelos extraordinários resultados desportivos, mas sobretudo pela personalidade e, quanto mais não fosse, por uma das mais famosas imagens do ciclismo, em que aparece com o rival (e amigo) de sempre Fausto Coppi, partilhando ambos água numa dura etapa de montanha, ainda não se sabendo ao certo quem dava água a quem. As teorias são várias, as versões também, algumas dizem-se afirmativas, mas o segredo permanece e, talvez seja melhor assim.

fausto
Uma das imagens mais icónicas do ciclismo . Coppi e Bartali no Tour de 1952.

De uma ou de outra forma fica o exemplo de solidariedade entre dois campeões, um agnóstico profundo (Coppi) e outro católico convicto (Bartali), um mais veterano e outro mais jovem (este Coppi), um bruto a pedalar (Bartali) e a nova figura de estilo do ciclismo moderno, um ciclista à antiga que fumava e bebia em demasia para um desportista (Bartali) e a nova era do ciclismo, no tempo em que subir o Col du Galibier (onde estavam na foto, no Tour, em 1952) era ainda um acto de maior heroísmo. Não é que ainda não seja, mas as condições na altura eram bem mais complicadas.

Porém, todas as diferenças que envolviam estes ciclistas não os impediram de, em momentos difíceis, serem solidários.
A carreira de Bartali, mais do que a de Coppi que, apesar de tudo era mais jovem e teve mais tempo no pós-guerra, foi severamente afectada pela II Guerra Mundial, anos de interregno em grandes competições e que tiraram anos de possível sucesso, de inimagináveis sucessos, a Gino Bartali.

Mas porventura o maior dos sucessos de Gino Bartali, curiosamente, ocorreu durante os períodos de interregno quando, nos seus treinos, que continuou, servia de mensageiro à Resistência Italiana, na luta contra o fascismo e na ajuda aos Judeus então oprimidos pelo regime nazi, e seus comparsas, com o chefe de estado italiano Benito Mussolini à cabeça.
O homem a quem chamaram “Gino, O Pio”, pelo seu conservadorismo católico (foi abençoado, pessoalmente, por três Papas!) esqueceu as diferenças entre Judeus e Cristãos, entre conservadores e comunistas, revelando-se um verdadeiro Humanista.

Enfim, anda Dylan Groenewegen, de bicicleta, a entregar cabazes a quem não pode sair de casa ou Alberto Contador a leiloar a sua bicicleta de 2011 (também uma valente bofetada de luva branca a muita gente) para ajudar a Cruz Vermelha, mas, apesar de serem atitudes de reconhecido valor, nada se compara ao esforço de Gino Bartali durante a segunda guerra mundial. Abdicar da sua segurança, ele que era então um herói nacional, nomeadamente para o Estado, para ajudar verdadeiramente os outros.
Embora estejamos em tempo de redes sociais e de aparência de unidade global, talvez o exemplo sinceramente humanista de Bartali seja cada vez mais difícil de ocorrer. Outro tempo. Mas também por isso está no Panteão do ciclismo, e desporto, mundial. E estaremos bem necessitados de preencher novas vagas de humanidade, solidariedade, simplicidade. E, também não podem ser sempre os mesmos, os ciclistas, a envergar a camisola da humanidade.

P.S. – à medida da divagação textual sobre Bartali, vou também ouvindo, novas sobre os exames nacionais (do ensino secundário) que, ao que tudo indica, serão recolocados mais à frente no calendário. Desafio adicional para o calendário da formação no ciclismo. Não podemos ficar sem um ano de formação (seria penalizar a modalidade num futuro próximo. Nota: há modalidades que deram por terminada a formação este ano, mas já tinham mais de meio ano de actividade formativa… com tudo o que lhe está inerente) mas também não devemos, nunca, ignorar as carreiras escolares. Lá está, mais uma tarefa difícil mas, claramente realizável, em que teremos de ser, todos, solidários. Solidários e organizados.
Luís Gonçalves