O exemplo de Alves Barbosa

Ninguém de boa fé terá capacidade para discutir a importância de Alves Barbosa no ciclismo português. Será porventura a personalidade mais representativa do que é a dedicação à modalidade, com um conhecimento bastante acima da média e com ideias, ainda hoje úteis, e que serão úteis durante muito tempo.

Foi transversal à modalidade. Tal facto só lhe aumentou as capacidades. Não foi apenas um ciclista de excepção, dos melhores que este país já viu e verá. Foi muito mais do que isso. Possuía a sua dose de vaidade, mas uma vaidade carregada de substância, e não daquelas vaidades ocas dessa substância que abundam por aí.

Acima de tudo, durante toda a sua vida deu, verdadeiramente, o corpo ao manifesto e à conta dessas experiências teve ideias. Muitas ideias, e partilhou-as. Umas melhores, outras piores, como todos nós as temos, mas todas úteis e partilhadas. Também por isso é um símbolo nacional.

Já no final da sua “carreira” ligada à modalidade acabou por se dedicar a preparar o futuro do ciclismo. Foi dos mais interventivos participantes no então novel projecto escolas de ciclismo. Esteve bem presente, em 1997, no primeiro encontro nacional de escolas de ciclismo, em Alpiarça. Este primeiro encontro foi chamado de Didáctico-Pedagógico. Observaram-se ciclistas, apresentaram-se propostas, discutiram-se ideias e caminhos para futuro.

Nesse futuro, a vinte e três anos de distância, vemos hoje que algumas ideias, poucas, diga-se, eram desadequadas, algumas tiveram um prazo de aplicação bem mais longo do que o então previsto, mas aí estão a dar frutos, e outras continuam sem sair da gaveta. Dos clubes formadores então presentes (16), cerca de metade continuam em actividade constante, a tentar formar e a tentar ter novas ideias, num contexto que já era difícil, e que se avizinha bem mais complicado.

Já não podemos recorrer, de forma presencial, à sabedoria de Alves Barbosa que, mesmo já com alguma idade apresentava uma dimensão de modernidade e de futuro, bem superior à de muita gente de trinta anos, sem esquecer o que era o ciclismo português e os nossos constrangimentos. Conhecia-nos imensamente bem. As ideias úteis têm invariavelmente uma elevada dose de conhecimento do que nos rodeia e de cada contexto.

Honestamente, poucos terão coragem de dizer que o ciclismo português, sobretudo para os ciclistas, está bom. Está mau. Mas, pode ficar pior.

Alves Barbosa, referindo-se ao método formativo de alguns clubes, falava muitas vezes em “corredores pequenos”. Os corredores feitos para um escalão etário, mas com poucas probabilidades de sucesso no futuro, no ciclismo e, por vezes, até na vida. Não sei que diria o Mestre, mas o ciclismo português terá que enfrentar uma maratona. E, às vezes, para ganhar uma maratona, é preciso mais que tudo saber gerir o esforço. O tal dar um passo atrás para depois poder dar, com segurança, dois em frente. Foi sempre assim que o ciclismo português se renovou. É só consultar 120 anos de história e de ideias.

Obviamente que todos queríamos cinco equipas Worldtour em Portugal e a Volta disputada pelo Froome, pelo Nibali e por dois ou três portugueses dessas super equipas nacionais. Mas sabemos que isso não é possível.
Quem acha conhecer a modalidade, com todos os condicionalismos existentes, com a sua visão, de forma cordial e o realismo que o momento exige, o melhor que tem a fazer por ora é… dar ideias. Mas é difícil dar ideias. Por vezes é tentadoramente mais fácil criticar de forma leviana quem dá essas ideias. É sempre assim.

Temos, com liberdade, assistido nos últimos tempos, por este espaço, a uma partilha de ideias entre leitores e escritores habituais, de formas diferentes, com pensamentos diferentes, mas com um propósito comum, o de ajudar o ciclismo. Recorrendo ao exemplo do primeiro encontro de escolas, Didáctico-Pedagógico, neste tempo, talvez seja mais útil dar ideias do que apenas dizer que as ideias dos outros estão erradas ou ultrapassadas sem uso de um fundamentado contraditório.

O ciclismo português precisa urgentemente de ideias. Já não podemos ter as ideias de Alves Barbosa, mas podemos inspirar-nos no seu bom exemplo de partilha de conhecimentos e partilha de ideias, sem medo de errar e sem nunca ter sido deselegante. Ouvi (e li) sempre com redobrada atenção Alves Barbosa. Aprende-se muito a ouvir e a ler.

Em nota final, direi que algo que me deixaria profundamente triste, seria não existir Troféu Alves Barbosa este ano. Se a Volta ao Alentejo, costuma ser a minha prova profissional preferida, o Troféu Alves Barbosa, por tudo o que simboliza, deverá ser o exemplo da formação em Portugal.
Luís Gonçalves