A oportunidade de Delmino Pereira

É invariavelmente nos tempos mais conturbados que se vêem as grandes lideranças e o grandes líderes. São poucos, os verdadeiros “generais” da História, exactamente, porque a tarefa é difícil. Não queremos comparar os feitos de Júlio César ou de Winston Churchil, seria profundamente injusto, mas, à sua escala, o actual presidente da direcção da UVP/FPC, Delmino Pereira, tem aqui a sua oportunidade de ficar definitivamente na história do ciclismo português.

Ficar na história, não só pela maneira como conseguirá gerir o que resta da época 2019, mas sobretudo porque tem uma séria oportunidade de transformar a Federação e refrescar o futuro do ciclismo português. Um novo ciclismo a sério.

Trabalho árduo não faltará a Delmino Pereira.

As dependências externas ao país e às vontades nacionais são grandes, porém, há sempre questões que dependem só de nós. Os trabalhos que se avizinham são duros, em tempos de incerteza, nomeadamente em relação ao que esperar das autarquias e patrocinadores, essenciais à sustentabilidade da modalidade, mas também de certeza numa nova crise económica e financeira. E esta certeza, que todos temos, pode já moldar os princípios do que será um futuro próximo.

E nesse futuro próximo, inevitavelmente, há que reduzir custos e estruturas para que a modalidade sobreviva. É, por isso, essencial, uma revisão do regulamento financeiro que se reflicta em 2021, acompanhada de uma séria revisão de taxas de inscrição. A existência de equipas, da formação aos profissionais, poderá depender, em muito, disso.

E a existência de corridas, que não podem fugir muito aos pornográficos custos policiais, dependerá de novas formas de ajuda ao alcance do meio federativo a incluir em cadernos de encargos que, sem retirar o essencial, terão de ser bem mais simples e acessíveis.

Os colégios de comissários têm que deixar de ser uma festa de família e amigos cheios de mordomias e compadrios. Já todos vimos comissários (um) a fazer, e bem, o trabalho que às vezes quatro não fazem, por desinteresse, ou simplesmente porque não sabem. Cabe à Federação, verdadeiramente, estar atenta a isso e valorizar quem de facto tem valor. E raras vezes são comissários internacionais…

Claro, desembocamos aqui no Conselho de Arbitragem, um orgão da Federação. Caro Delmino, tem oportunidade de se desembaraçar de gente que está há tempo a mais no ciclismo. Tiveram o seu tempo, em certa medida, de crescimento da modalidade, continuarão a ser úteis, mas tudo tem o seu tempo. Aliás, os próprios, da Arbitragem, à Assembleia Geral, já deveriam ter reconhecido isso. Seremos magnânimos com os seus méritos, mas não há mérito maior do que sair no momento certo.
A estrutura federativa também carece de mais compromisso. Não chega receber salários e fazer umas apresentações. Há quem de facto trabalhe, mas também há quem não faça nada. São por vezes heranças pesadas e difíceis de contornar, mas teremos que criar novas estruturas, com objectivos específicos, dentro da Federação e, sobretudo, saber quem assume cada uma das responsabilidades. O que vemos hoje é uma dispersão de meios em que todos fazem tudo, acabando por não fazer nada, ou por outra, são sempre os mesmos a fazer alguma coisa. Por exemplo, começa-se um curso de treinador com um orientador (ou lá o que é que lhe chamam!) e acaba-se, surpreendentemente, com outro. Uma questão tão simples, e que nem esta tem fio condutor.
Os bons líderes não têm receio de se rodear de gente competente. É, aliás, um dos segredos do sucesso. Assim, recolhem opiniões, válidas, e decidem. É importante não ter medo de decidir. Acima de tudo têm de se rodear também de gente que gosta verdadeiramente do que faz, competente e empenhada e saber ouvir toda a gente.

A solidariedade provoca-se. Embora, no ciclismo português ela não abunde, sobretudo entre as equipas. É um pouco o feudalismo. Talvez seja a tarefa mais difícil de realizar. Provocar a solidariedade, num tempo que se aproxima com tanta necessidade dessa solidariedade.

Tudo complicado, em tempos conturbados. Não é qualquer um que pode ocupar um lugar de “general”, um lugar de necessário carisma, numa situação destas. Mas é assim que se vê quem tem de facto competência. Delmino Pereira, tem uma oportunidade única para ficar na história do ciclismo português, de forma relevantissíma. A todos os outros resta colaborar no que for razoavelmente pedido e estar atentos.
Luís Gonçalves

1 comentário a “A oportunidade de Delmino Pereira”

  1. Estou de acordo com o articulista quando diz que o presidente tem que se desembaraçar de gente que está há tempo a mais no ciclismo , por exemplo, a federação de ciclismo talvez seja a única que tem um selecionador vitalício movido por interesses questionáveis. Quase quase ninguém tem a capacidade de sair pelo seu próprio pé, esta grandeza está ao alcance de poucos.
    Só o futuro dirá se Delmino é um verdadeiro comandante ou mais um situacionista.

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