Uma questão de atitude

Provavelmente, avançamos para o renovar do estado de emergência, com todas as condicionantes que já temos ou outras, mais brandas, ou ainda mais restritivas. Por isso mesmo, a maioria das actividades estão paradas. Os portugueses vão cumprindo as normas.

Apesar da contingência, esta não deve deixar de ser uma altura em que teremos que abrir o caminho do futuro próximo. Por contra senso, o futuro próximo, para o ciclismo, até acaba por ser mais previsível, do que um futuro mais distante em que, provavelmente, assistiremos ao colapso do modelo actual na modalidade e teremos obrigatoriamente que refundar outras bases, porventura, regressando a uma maior simplicidade.

Tem-se falado muito (bem e mal) em mecanismos de ajuda económica. Para as empresas, e bem, para a cultura, e bem, para as artes, e bem, mas, como de costume, no desporto, nada. Sempre fomos um país atrasado neste aspecto. Assim como é óbvio que aulas on-line, vão esquecer a educação física. A falta de exercício não é uma questão menor. Bem pelo contrário.
Ou seja, o desporto, nomeadamente o ciclismo, mais uma vez tem que se safar sozinho, com equipas abandonadas ao seu destino.

Teremos pois, sem ser fácil, de continuar a trabalhar com redobrado afinco. Não devemos esquecer o ciclismo profissional, mais mediático, mas também não deixar para trás a formação. Cada ano formativo é um ano diferente e cada ano é absolutamente necessário na formação de futuros ciclistas. Desprezar agora a formação seria uma machadada no futuro do ciclismo. Até porque, com a sensação de abandono, poderíamos assistir a uma debandada geral de uma modalidade que está carenciada de jovens e que depende deles (como qualquer outra) para ter sustentabilidade.

A questão é antiga e há muito que a nossa Federação deveria ter optado por uma espécie de especialização dos seus quadros, no plano formativo e no plano profissional, em dedicação exclusiva a cada contexto. Não só para fazer melhor face a situações absolutamente anormais, como a que vivemos, mas porque dessa forma seria notória uma melhoria de cada um dos contextos mesmo em tempos de normalidade. No modelo actual vemos a dispersão de recursos, sem grande planeamento de um fio condutor de futuro.

Doutro ponto de vista, o ainda conseguir salvar esta época dependerá também em boa parte do treino que os ciclistas (da formação, aos profissionais. Apenas estes, porque são os que podem influenciar o futuro) conseguirão realizar. O decreto actual permite aos “não profissionais” (e muitos integram o pelotão profissional…), a realização de exercício físico por períodos curtos. Isto, sem se saber muito bem o que é um período curto. Para um doente cardíaco, com certeza menor do que para um desportista. E, embora a melhor solução seja o treino em casa (sem exageros), uma espécie de segunda pré-época, a verdade é que com certa regularidade terão de existir treinos no exterior. De curta duração e, sempre, em prática isolada.

Sem vincular a opinião de ninguém, e até sob pena de ser mal interpretado, entendo que um treino no exterior, sem paragens, em prática isolada e de curta duração, seja lá o que isso for, não faz senão bem e é essencial em termos mentais (uma questão de saúde pública, que não deve ter pouca importância). Não podemos comparar a atitude dos desportistas de rua, com a de outras pessoas mais habituadas a exercício enlatado, ou a nenhum exercício que não seja passear o caniche durante duas horas e, trinta e quatro paragens para falar com todos os vizinhos possíveis.

O exercício numa prática de acordo com as normas em vigor e com redobrada prudência na avaliação de riscos, tal como o país, não pode nem deve parar. De outra forma, não morrendo do mal, morremos da cura. Já dizia o Padre António Vieira, nos seus sermões, “a necessidade não tem Lei”. Não será o caso da falta de exercício, mas noutros aspectos da sociedade, bem mais importantes, parecemos caminhar perigosamente para isso. E talvez o futuro próximo nos ensine a sobreviver com este tipo de males que, ao que tudo indica, serão cada vez mais comuns no seio da humanidade. É bom e recomendável, parar, confinar, pensar, mas não parar de mais e sobretudo não entrar em exageros de controlo.

Por isso mesmo, também, sou frontalmente contra o controlo por drones. É controlar em demasia os cidadãos, por um meio inevitavelmente estranho, absolutamente impessoal e imensamente falível, porque pode estar a cortar direitos fundamentais, ou ter essa tentação, a cidadãos cumpridores.
Dito isto. Fique em casa. O máximo tempo, que o tempo lhe permitir.
Luís Gonçalves