Resistir à guerra

Durante a II Guerra Mundial, de facto, um dos eventos mais devastadores da história mundial, sucederam-se suspensões desportivas por todo o mundo e, como será fácil de calcular, com especial incidência na Europa.
Um dos único eventos que se realizou foi o Tour de Flandres. Durante toda a II Guerra Mundial, talvez mesmo único. E, mesmo que não tivesse sido competição única, realizar qualquer actividade extra guerra na região da Flandres, campo de tantas, grandes e famosas batalhas de guerra, foi algo notável.

O esforço de realização precisou de muita vontade, diremos nós também, de uma enorme dose de loucura. O acordo com o comando alemão que no princípio do conflito dominava a zona, terá sido um acto de coragem, mas também de visão planificada. Naturalmente, que as forças ocupantes, também quiseram dar um cunho de normalidade à sua ocupação. Mas não deixa de ser uma proposta audaz de quem a fez. Tinham um plano, propuseram-no e executaram-no.

Depois houve que adaptar o percurso a todas as circunstâncias do tempo que então se vivia. O Tour de Flandres, nem hoje tem estradas acessíveis, mas, nesse princípio dos anos 40, a destruição da guerra tornou algumas estradas completamente impraticáveis e outras de difícil circulação. Foi preciso refazer grande parte do percurso, encurtá-lo, usar estradas inimagináveis, mas deixá-lo, ainda assim, competitivo.

Mas se os organizadores tiveram de ter a sua dose de loucura, menos não terão de ter tido os ciclistas. Pedalar em estradas ainda mais esburacadas do que o costume, em clima de guerra e com pouco apoio, designadamente alimentar, é, essencialmente, um acto de enorme provação que fica para a história e que demonstra bem o que são os ciclistas e o que é o ciclismo. Teremos de continuar sempre muito à frente de todos os outros.

Foram anos de pelotões imensamente mais curtos, nalguns casos com cerca de quarenta elementos (o que nem era mau tendo em conta as circunstâncias) e quase por completo virados para dentro, portanto, só com belgas. Em tempos de crise, em qualquer país, é normalmente esta uma das soluções mais simples. Manter as competições em modo de consumo nacional. Em certa medida foi, nos anos 70 (anos de grande confusão e desentendimentos por cá), o que permitiu à nossa Volta sobreviver, para depois se internacionalizar. Curioso, é que esse consumo interno acabou por nos dar grandes Voltas a Portugal e bons nomes do ciclismo português!
E, neste contexto, da internacionalização, em 1948 (já no pós-guerra), o Tour de Flandres teve o seu recorde de participantes (265). Renovou-se com alteração de datas. Até aqui coincidia em dia, normalmente, com o Milão-São Remo. Já era uma super prova, confirmou-se então como uma super prova abrindo as portas, por exemplo, ao “hat-trick” do italiano Fiorenzo Magni que começou em 1949.

É, como sabemos, um dos cinco monumentos. Para sempre, a prova desportiva que resistiu à guerra com a vontade de gente que será eternamente recordada. Não são indiferentes. Com muita audácia e loucura de quem o fez, mas sobretudo com muita imaginação. Às vezes, basta usar a imaginação, embora seja um bem cada vez mais escasso. Imaginar e adaptar. Estudar o que já foi feito e como foi feito. Adaptar uma boa cópia pode ser um dom de simplicidade.
Luís Gonçalves

1 comentário a “Resistir à guerra”

  1. Mas que delicioso texto sobre um dos temas que mais me apaixona da história: a 2ª guerra mundial e falar de um país onde vivi 3 anos, a Bélgica. Vivi na parte da Valónia muito perto já de França. Assisti a uma chegada em Tournai, na Bélgica, de uma etapa do Tour em 2012, onde fiz uma entrevista no hotel ao Rui Costa. As pessoas não imaginam a grandeza de um Tour, mas assistir a uma Paris-Roubaix e percorrer a pé um qualquer sector de pavé para se dar valor ao que passam os desgraçados dos ciclistas. A Liége também é uma prova fantástica. Quem vê uma prova destas ao vivo fica marcado pelo ciclismo para toda a vida. Garantidamente. Cordiais cumprimentos caríssimo Luís Gonçalves

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