As voltas que a Volta dá

Por costume, os textos que por aqui se vão escrevendo, no essencial, saiem da memória. Por isso mesmo, por vezes, surgem alguns lapsos, curiosamente, tantas vezes com intervenientes com os quais se tem alguma proximidade. Com o seu a seu dono, de facto, após bom alerta do nosso leitor Humberto Sá, o ovarense Belmiro Silva venceu a Volta de 1978 e não a de 1977, como havia sido dito. A de 77 pertence a Adelino Teixeira, do Lousa.

Factos que, apesar de tudo, não desvirtuam o sentido do texto. No contexto, e tendo em conta “1975, o ano zero”, talvez não seja inútil vir agora acrescentar outro pormenor. Nessa revolução do ciclismo português, pouco tempo depois, em 1982, aparecia o JN como organizador da Volta a Portugal. Foram vinte anos de catapulta do ciclismo português na internacionalização, de grandes equipas nacionais, de grandes Voltas.
Talvez o boom dessa internacionalização tivesse sido mais evidente nos anos 90. A qualidade organizativa e, diga-se em abono da verdade, um calendário internacional diferente, atraiam boas equipas e bons ciclistas estrangeiros.

Em 1997, Zenon Jaskula, que foi terceiro classificado no Tour (1993) e venceu a medalha de prata, no CRI, numas Olimpíadas, o polaco de aço, então da Mapei, uma super equipa italiana, impunha-se ao italiano Wladimir Belli, da Brescialat, e a Joaquim Gomes. Foram anos de domínio italiano na Volta, aliás, no ciclismo em geral. Anos em que os ciclistas se davam ao luxo de sair directamente do Tour, para a nossa Volta (que tinha 14 duros dias) e vencer. Por vezes juntar seis etapas, como fez Massimiliano Lelli (Saeco), no ano anterior.

De qualquer forma, o mérito de Zenon Jaskula foi o de trazer ao ciclismo português, à nossa Volta, uma realidade hoje impensável nesta corrida. Uma realidade então conseguida pela capacidade organizativa do carismático Serafim Ferreira e do Jornal de Notícias. Numa conjuntura diferente, noutro ciclismo, mas como o ciclismo deve existir, sobretudo neste canto escondido da Europa que é Portugal, associado a um jornal (ou meio de comunicação), regressando às simples origens. A estrutura organizativa até pode ser diferente, mas nunca deverá prescindir de um extrema proximidade com o meio mediático.

A associação mediática é essencial. Há parcerias de sucesso, quase umbilicais que nos criam hábitos de consumir um produto e estão de tal forma oleadas que quase nos fazem produzir imagens de olhos fechados, como consegue a RTP durante a Volta, mas, apenas na Volta.

Essa Volta de 1997, não teve transmissão da RTP. Por esses anos era a SIC, ainda embrionária, mas que também viu no ciclismo um desporto popular de expansão uma forma de se impor em todo o território.

Não foram transmissões “famosas”, talvez os meios também fossem reduzidos, mas acabaram por nos deixar bonecos, de certa forma inesquecíveis. O genérico continua a ser muito bom. Um som apelativo, num jogo de palavras fácil, mas cativante.

Bem, ficaram também alguns momentos de entretenimento. Talvez exagerados, numa altura em que se devia falar de ciclismo, mas que nos criaram memórias duráveis.Guilherme Leite e Luís Aleluia, protagonizavam a animação, numa altura em que não existiam os programas que hoje existem durante a Volta.
Mas em relação aos dois actores, desta Volta, acabam por ficar para sempre o Lagosta e o Lavagante. Durante as etapas, num anúncio ao Troiamarisco (também inesquecível equipa, onde corriam o Cássio Freitas, Lavarinhas, Alberto Amaral, Nuno Alves ou Raul Matias, por onde passou o Gamito e onde começou o Rui Sousa) lá aparecia o carro da equipa seguido destes dois fugitivos que paravam para se abastecer de marisco… da Troiamarisco, claro. Com direito a saco de abastecimento e tudo!

São mais de vinte anos, mas as imagens continuam bem presentes. Acabam por ser acessórios, até parecendo algo despropositados hoje, mas a nossa memória chega lá. No ciclismo, para que o tempo perdure, só é preciso o incentivo certo, ou a parceria certa. Uma grande dose de boa vontade e imaginação, naturalmente, adaptada ao século XXI. Iremos precisar disso como de pão para a boca. Provavelmente, e acima de tudo, da simplicidade das origens.
Luís Gonçalves

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