1975, o ano zero

Nos tempos mais recentes, 1975, foi o ano sem Volta. Sem Volta a Portugal em Bicicleta, mas um ano que deu a volta. Foi o ano do PREC (Período Revolucionário Em Curso), certamente único para quem o viveu, um ano conturbado em território português, sobretudo a nível político.

Apesar das dificuldades acabou por ser um ano zero no ciclismo português, que também acabou por nos levar à definitiva internacionalização do nosso ciclismo e a uma profissionalização, passe o pleonasmo, mais profissional. Um motivo de surgimento de Associações de Ciclismo, significativas e influentes deste país, com a sua raíz, precisamente nessas dificuldades e no suplantar dessa realidade então existente em 1975.

Eram tempos diferentes, esses desse 75. Mais voluntarismo, mais necessidade de renovar o mundo português, mais facilidade em aceitar ideias de renovar esse mundo. Um mundo diferente, não tão dependente da globalização, talvez por isso mais fácil de curar a nível interno. Mas os princípios serão os mesmos. Voluntarismo, inovação, resiliência e solidariedade.

Já de volta e com Volta, em 1976, o então sportinguista Firmino Bernardino, impôs-se ao decano Joaquim Andrade e ao novato Marco Chagas. A renovação de uma nova era do ciclismo português já estava em 1976. Um símbolo do ciclismo nacional, Marco Chagas, acabava por surgir do meio das nuvens negras que pairavam sobre a modalidade.

No ano seguinte, 1977, o ovarense Belmiro Silva, ainda recordista de vitórias na Volta ao Algarve (três) impunha-se (embora por desqualificação de Fernando Mendes) ao serviço de uma equipa modesta, o Coimbrões. Também símbolo do que pode ser o aproveitar de estruturas até então pouco evidentes, mas, há altura, como agora algumas serão, com a devida actualização, válidas. Assim lhes dêem valor e o necessário apoio, nomeadamente regulamentar.

Em 1978, João Costa, do Campinense, não fosse o evento, um ilustre desconhecido, foi o primeiro vencedor no monte farinha, numa etapa da Volta a Portugal. Três anos após o duro ano de 1975, surgia uma das mais míticas etapas das corridas portuguesas, a Senhora da Graça.

Precisamos apenas de vontade e boa gente para guiar a modalidade. Gente com vistas largas, solidária e que saiba repensar o ciclismo de forma séria, honesta e, obrigatoriamente, com uma nova visão, sobretudo uma que se saiba enquadrar com o que restará da sociedade que conhecemos no imediato. Agora, embora por outras razões, então, como em 1975.

Foi o ano que fez repensar o ciclismo português moderno. Embora noutro enquadramento, é preciso a mesma coragem e um pouco da mesma loucura.
Luís Gonçalves

2 comentários a “1975, o ano zero”

  1. acho que o Firmino Bernardino quando ganhou a volta corria pelo Benfica.

  2. Em 1977, o vencedor da volta a Portugal (39ª, em que participei) foi o Adelino Teixeira, do Lousa; O Belmiro Silva venceu a volta do ano seguinte.

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