O vírus mais perigoso

O mundo está em suspenso. Por todo o lado cancelam-se eventos, adiam-se, relizam-se a meio gás. No que nos toca aqui, as actividades no ciclismo estão praticamente paradas. Por agora, melhor ou pior, todos compreendemos a paragem, internacional e interna. Mas, quando isto passar, é essa a tendência dos vírus, o que se vai passar? Ou por outra, o que estamos a planear para sustentar um futuro próximo.

Em circulo de amigos disse à cerca de um mês que o coronavirus, sem lhe tirar a importância devida e a real atenção que merece, iria servir como uma espécie de troika. Durante esta, a realidade económica era de facto complicada, mas, também serviu para muitas justificações exageradas.
No que os toca em particular, sabemos há muito que o organizador do GP das Beiras, não diremos que esteja de quarentena, mas, tem andado lá próximo. Mas agora, confirma-se, a culpa é do coronavirus!

É uma falha de calendário, num calendário necessitado. Porém, viramos mais atenções para a Volta ao Alentejo. Ou a “coisa” se resolve com alguma rapidez, ou não teremos, em 2020, a Volta ao Alentejo. Não é fácil para este organizador manter a prova noutra altura do ano. Até porque, esta UCI é demasiadamente insensível ao ciclismo fora do Worldtour. O esforço é grande e só esperamos que este rombo não seja fatal numa prova tradicional, e importante, do calendário português. Com circunstâncias económicas complicadas para o ciclismo e para as equipas, já este ano. As despesas já assumidas não se adivinham de devolução fácil ou de gestão acessível.

No contexto, se há quem deva estar atento, são os dirigentes federativos, todos, não só o Presidente da direcção, mas até, e também, os funcionários que não devem apenas preocupar-se em receber, religiosamente, o seu salário a cada mês.

Assim como, abrangentemente, se ponderam várias situações que não só as de saúde pública a nível internacional, nomeadamente económicas e de dependência excessiva do mercado chinês, também a nível interno, e no ciclismo, será preciso ponderar que o que se projectou para esta época estará completamente desvirtuado. Competições e regulamentos têm, obrigatoriamente, de ser revistos, do profissionalismo aos escalões de formação.

Há normas regulamentares que já faziam pouco sentido em condições normais e que agora são um despropósito gigante. Tendencialmente, diremos, que o princípio terá de ser o de facilitar e simplificar procedimentos. Só assim o mecanismo continuará oleado e com capacidade de regeneração. De outra forma, se o calendário 2020 será afectado pelo coronavirus, o calendário 2021 será afectado por vírus bem mais permanentes e prejudiciais para a modalidade.

No fundo, esta paragem forçada, é uma boa oportunidade de reflexão. E há situações tão evidentes que nos podem assaltar agora e que têm tido tão pouco interesse por parte de quem manda ou de quem anda na modalidade, que podiam agora ser ponderadas.

É uma boa oportunidade, por exemplo, e já que se avizinham tempos ainda mais difíceis, para ponderar cadernos de encargos das provas e sobre quem cumpre os cadernos de encargos. Se o organizador for uma equipa, como acontece, acaba por existir uma certa troca de galhardetes, mas, quando é uma empresa organizadora, ou a própria Federação, talvez tivéssemos de ser mais escrupulosos com os critérios de cumprimento e dos cumpridores, sob pena de desigualdade profunda entre organizadores.

Policiamento? questão tradicional, mas que acaba por nos ultrapassar em demasia. Será mais uma questão de pressão política.

Mas, onde podemos ter mão, é nos colégios de comissários. E aqui, reduzir imenso os custos de prova. Os próprios comissários, e o Conselho de Arbitragem, que não é mais do que um orgão da Federação, deveriam nos tempos mais próximos ter sensibilidade suficiente para perceber que o que resta deste ano não será fácil para quem anda no ciclismo. Não lhes ficaria nada mal, como classe priviligiada que são, prescindir de uma parte do seu orçamento em prol de uma modalidade que a maioria diz, amar. Sem moralismos, eu prescindo de muito há vinte e cinco anos, para ver outros a prescindir de tão pouco. É uma boa oportunidade de se demonstrar o que se sente de facto pela modalidade. Ficaremos definitivamente esclarecidos.
O mesmo para alguns funcionário federativos. Não o salário. como é óbvio. Mas, por exemplo, os custos com as actividades formativas, ajudas de custo ou algumas regalias acessíveis aos membros federativos. Pelo menos usá-las com prudência.

Tenham ideias, mudem os regulamentos, adaptem-se. Quem anda mesmo na estrada (ou no mato) não tem outro remédio, mas, neste momento, espera que os outros façam o mesmo. Diz a História que só há crises constitucionais quando falta dinheiro ou quando existem situações completamente anormais. Até aí, as Constituições, são todas óptimas. As grandes provações dão mais visibilidade às falhas.

2020 adivinha-se um anos de desilusões. Não se deixe que para 2021 fique uma desilusão fatal. Eu teria extraordinária atenção ao que se possa perder nos escalões de formação para o futuro. E, nesse campo, os regulamentos actuais de algumas competições são extraordinariamente falíveis. Basta pensar que há escolas com alunos aconselhados à quarentena (sem competição, mas também sem treino) e outras não. Não basta adiar, é preciso repensar o modelo definido para outro contexto (e já mal definido).

Ou perderemos alguns bons elementos pelo caminho.

O vírus mais perigoso será pensarmos que está tudo igual, sem estar.
Luís Gonçalves

One thought on “O vírus mais perigoso”

  1. Cá entres nós quando se fala em calendário nacional fala-se em desinteresse da FPC que nada tem feito para combater um escasso calendário profissional.
    Com o sem vírus o GP Beiras já não se ia realizar não por culpa do seu organizador que fortalece o calendário com mais duas competições importantes nacionais da sua autoria, mas muito por culpa dos dirigentes do ciclismo nacional onde os números são os seus objetivos, e não se preocupam em erguer e apoiar provas como está, e olham para as equipas profissionais como um mealheiro interno.
    Quando as entidades organizadoras independentes que muito fizerem e fazem se cansarem do jogo sujo do ciclismo nacional, talvez aí seja tarde para voltar a trás e o ciclismo profissional passar a ser passado e uma lembrança do presente, porque bem ou mal o ciclismo nacional depende dessas pessoas que vivem para o ciclismo e para manter a modalidade viva, o ciclismo nacional é mesmo ingrato com quem lhe deu vida.
    Os velhos que não moram de alzheimer porque os novos já nascem com ela.

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