Dia a dia

Em certa medida, à conta deste vírus que por aí anda, o ciclismo parece estar a passar uma segunda pré-época, na altura errada da época. Ciclistas parados, por obrigação, equipas paradas, corridas canceladas ou anuladas, outras, claramente a meio gás.
Com evidência, pelo menos por enquanto, para além do Tirreno-Adriático, vai faltar-nos o Milão-São Remo. Não se tira protagonismo à Strade Bianche, ou outras provas, mas não termos um dos cinco monumentos do ciclismo é algo diferente. As interrupções do Milão-São Remo, prova realizada desde 1907, coincidiram apenas com as duas guerras mundiais e, mesmo assim, apenas durante um ano na primeira, e dois anos na segunda.

Em boa verdade, por ora, fala-se em adiamento. Mas não será fácil recolocar todas estas provas no calendário, sobretudo, sem prejudicar outras, e tendo em conta também, que estamos em ano de Jogos Olímpicos e teremos a concorrência do europeu de futebol, disputado, pela primeira vez em vários países europeus.
Mas se os prejuízos que podem existir no mundo do ciclismo de topo são grandes, deveremos todos reflectir, nomeadamente a UCI, sobre o que poderá suceder ao ciclismo continental com anulação ou adiamento de provas.

Obviamente que ninguém quererá, nem deve, contrariar ordens da saúde pública, mas, pegando no exemplo português, com um calendário essencialmente virado para dentro e que não é tão extenso como o de outros países, nem têm, as equipas, a facilidade de deslocação da Europa central, as tendências e a capacidade de sobrevivência das equipas, já de si difícil, pode avizinhar-se complicada.

Há já uma espécie de código de procedimentos da UCI que, talvez convenha ser posto em prática. A questão pode não se resumir ao adiamento ou anulação de corridas, mas a cumprir certas regras de conduta, simples, mas por certo com alguma eficácia. Nesta fase, mais do que se preocuparem com situações banais de corrida, deviam os comissários e as Federações (ambos, quem, em primeira linha, manda nas corridas) tentar minimizar maiores estragos futuros. E, a presença de tantos comissários nas provas tem de servir para alguma intervenção pedagógica.

Enfim, fala-se em tanta coisa sobre o covid-19, muita útil e tanta, por certo, inútil, que pelo andar da carruagem teremos que levar isto dia a dia. Sobretudo, sem excessos, qualquer que seja o lado dos excessos.
Luís Gonçalves