Pelo lobby de massa crítica

Ser dirigente associativo, ou federativo, é uma missão cada vez mais difícil de cumprir. Por isso mesmo, é cada vez mais útil, ouvir e partilhar ideias e considerações. Ideias sem interesse pessoal e que devem ser vistas de um forma compreensivelmente abrangente e não há luz de pequenos feudos ou interesses evidentemente assumidos.

Em texto publicado ontem, assinalando que as coisas não estão bem, são descritas ideias, algumas delas com alguma antiguidade. Antiguidade, mas aplicabilidade. Antigas apenas porque já vêm sendo assinaladas há imenso tempo. Todas úteis, mas, umas necessitam de alguma ponderação, outras com as quais ninguém deixará de concordar e, ainda outras que alterariam definitivamente o equilíbrio de forças existente há 120 anos, mas porventura, também fariam entrar o ciclismo português efectivamente no caminho da modernidade. Aí sim, o novo ciclismo.

Mas, o centro hoje não é na discussão dessas medidas. Por ora talvez se faça uma reflexão mais substantiva do que é a realidade do ciclismo português. Também nesse artigo se escreve sobre a necessidade de criar lobbys de influência que possibilitem ao ciclismo o alcance de outras modalidades.

No contexto, por mais que gostemos de ciclismo, não podemos de facto deixar de considerar que é esta uma falha grave que vamos tendo. A imagem do ciclismo continua a ser imensamente popular. E não há mal nenhum nisso, porque é essa uma das essências e virtudes da modalidade. Mas talvez seja vista de fora como, demasiadamente popular. Continuam algumas pessoas a ficar admiradas quando encontram pelo ciclismo certos agentes com determinada formação superior, no terreno, a respirar o pó dos trilhos, ou a aguentar o calor do alcatrão. Surpresa que não acontece pelo mundo do futebol, que abarca tudo, e tem um elan, que as outras modalidades não têm. O futebol consegue chegar a todo o lado. Como é evidente, até onde não devia…

Mas, à parte o futebol (em Portugal é sempre assim) a questão é que vão surgindo outras modalidades, até há bem pouco tempo com pouca implantação nacional, onde esse mundo de influências se vai movendo a uma escala bastante elevada. Modalidades que nasceram e crescem, não da influência popular das massas, mas apenas e só da influência dos lobbys. Certo é que, apesar do pouco apoio popular, elas aí andam a fazer sombra severa ao ciclismo.
Não há muito tempo, até tivemos um presidente da UVP/FPC que, diga-se em abono da verdade, conseguia movimentar algumas dessas influências. Por isso mesmo conseguiu estruturar o ciclismo no caminho do futuro. A consideração é que, em estranho paralelo, estruturou o futuro, mas ficou preso no passado. Um passado que agora parece cada vez mais presente e sem grandes pensamentos e reformas de futuro.

No mundo actual, bem ou mal, os lobbys são cada vez mais importantes. A comunicação social em geral, os jornais em especial, dada a ligação umbilical ao ciclismo, são cada vez menos o porta estandarte da notícia reflexiva do real interesse do público e cada vez mais o porta estandarte comercial. Isto, por mais que digam o contrário. Fará também isso parte da actividade comercial.

Sem referências, será cada vez mais difícil ao ciclismo, entrar nesse mundo comercial, da notícia oca, mas rentável às modalidades. Durante a Volta ao Algarve, um jornal generalista de tiragem nacional, assinalava o dia anterior da algarvia num pequeno quadrado (e se não me falha a memória, esteve cá o Nibali!), enquanto ao lado fazia parangona duma dessas modalidades mais recentes por cá. Nada contra essa modalidade (que não vou referir por respeito desportivo), mas, mesmo com pouca inteligência, sabemos porque foi assim feita aquela página…

Mas se falta influência ao ciclismo, que, pior do que visibilidade ou influência governativa, poderá ser fatal quando começar a faltar o lobby entre os autarcas deste país, diremos que coisa pior afecta o ciclismo português. Tradicionalmente, é uma modalidade com pouca massa crítica e em que a crítica, mesmo que construtiva, é quase sempre vista como uma afronta (aqui, pelo “quase” utilizado, uma declaração de interesses. O ano passado tive uma boa experiência crítica com a Associação de Ciclismo do Minho). Não se fala aqui da “boca” que este ou aquele manda, normalmente, para proteger o seu interesse pessoal ou por pura intempestividade de génio, mas de algo mais profundo que nos conduza a outro lugar que, com algum risco próprio, se espera melhor.

Porém, quando olhamos para quem escreve ou fala sobre ciclismo, salvo os raros inconstantes do costume, está sempre tudo bem. Só está mal o doping. O resto, tudo cinco estrelas, da formação aos profissionais. E quando se fala em mais do que tácticas, equipas ou boatos, a maioria do público do ciclismo desliga-se, ou porque não percebe do que se fala, ou porque não vê interesse. Até aqui, chegou apenas o leitor resistente.

Sem nunca desprezar quem é de facto da modalidade, porque não há modalidade que sobreviva sem estes, talvez o ciclismo tenha que atrair mais gente, capaz e audaz, de fora da modalidade, nem que seja por mero interesse. As próprias equipas têm que ultrapassar algum conservadorismo. É o que fazem os outros. Naturalmente que apelar ao exterior carece sempre de alguma prudência. Também não queremos cá quem desvirtue a modalidade. Seria pior a emenda do que o soneto.

Mas também não devemos olhar para as estruturas governativas do ciclismo e ver sempre a mesma linha, e conseguir antevero mesmo horizonte. Ora bem, para partilha real de ideias e abrir horizontes, com alguma ironia, talvez o processo inicial dentro do ciclismo português seja o de criar um lobby de massa crítica!
Luís Gonçalves