Nos tempos que correm, as coisas não estão bem, logo…

Assistimos com alguma ansiedade, à problemática da possível anulação de várias provas do calendário internacional, com os olhos do mundo do ciclismo postos, para já, nas clássicas italianas de março, onde estão incluídas três das mais prestigiosos competições mundiais : Strade Bianchi, Milão-S.Remo e o Tirreno Adriático, mas outras competições como o Paris – Nice, por exemplo, podem ser um problema se a situação não melhorar no centro da Europa.

Mas se externamente os principais problemas se devem ao Corona virus, no nosso país, as constantes fragilidades do calendário nacional revelam-se de uma forma assustadora . Haverá, porém, males que vêm por bem ?

A pergunta até tem algum sentido, se as pessoas envolvidas no mundo do ciclismo nacional, darem as mãos, lutarem todas para o mesmo lado, e concertarem estratégias que possam ser exequíveis, deixando para trás os luxos supérfluos e desnecessários, em tempos de crise.

Com um calendário escasso em números de dia de corrida, os arautos que afirmam que temos muitos dias de corrida, esquecem-se que a tradição do nosso ciclismo é interna, o afastamento do centro da Europa obriga a um calendário próprio, já não dizemos com 100 dias de corrida, como era tradição nos anos 90 e inícios do século XXI, mas que possa ser sustentável nos 70 dias de provas.

Com algumas interrogações quanto à realização do Prémio das Beiras, que pensamos não terem fundamento, e depois da anulação da Clássica de Torres Vedras e agora a mudança do Prémio de Portimão, autarquia que abdicou da sua realização, ambas as provas do escalão sub-23, foi a vez da clássica da Primavera ter sido surpreendida com um policiamento record de 10.000 euros para uma prova de um dia, situação que julgamos também ter sido ultrapassada, mas que coloca o ciclismo numa linha laranja, da qual muito dificilmente sairá, senão existirem medidas de contenção e de uma nova realidade, que os responsáveis terão de adoptar com urgência.

Primeiro ponto a analisar : a escassez de provas do calendário nacional, já deveria ter levado os dirigentes federativos a aumentarem o número de ciclistas por equipa, em provas do calendário nacional de sete para 9 ou 10 por equipa. Desta forma, haveriam menos paragens para os ciclistas, com muitos deles a estarem mais de um mês sem competirem. Mas será que os dirigentes se aperceberam deste pequeno pormenor ?

Serão muitos ciclistas em prova ? Não, se apenas competirem as equipas nacionais, suprimindo a participação de equipas amadoras do país vizinho, que pouco ou nada trazem de positivo para o ciclismo nacional, isto se levarmos em linha de conta não existirem contrapartidas para as equipas nacionais de sub-23 para competirem em Espanha.

Este ponto parecendo que não é extraordinariamente importante. Senão vejamos, quase todas as formações têm um plantel entre 10 a 13 ciclistas . Na prova de Abertura só correram sete, na Volta ao Algarve outro sete, desde a prova de Abertura até a clássica da Primavera, já decorreu um mês, sem que muitos ciclistas tenham sentido o aroma muito próprio da competição.

Depois, aumentar o número de provas para os escalões juniores e sub-23, fazendo com que estas duas categorias corram em conjunto, diminuindo consideravelmente os custos organizativos, em especial com o policiamento, que se torna mais barato e acessível. Já aqui apontamos esta hipótese como um meio para uma melhor evolução do escalão júnior e a redução de despesas , para as quais não existe receita à vista.

Sensibilizar organizadores e patrocinadores das provas a escolheram os seus percursos criteriosamente, evitando passagens de influência da PSP, diminuindo assim os custos com policiamento, que chegam a ser exorbitantes e sem qualquer justificação . As partidas simbólicas deverão respeitar o código de estrada, evitando-se desta forma custos com policiamento totalmente desnecessários

A criação do departamento de ciclismo profissional da FPC, que teria como finalidade promover novos eventos, com especial destaque para a promoção do ciclismo, é um dos pontos essenciais, que nenhum presidente da FPC, desde Henrique Castro a Delmino Pereira quis criar. Também não foram muitos os presidentes, que pela antiga Barros de Queiróz, agora Campolide , que por lá passaram.

Importa, contudo, que o ciclismo afronte os seus problemas externamente, reunindo com as forças policiais e com o Ministério da Administração Interna para conter os custos exorbitantes e abusivos das forças policiais.

Que se reúna com o Ministério do Desporto, para dar a conhecer os seus custos e a problemática da diferença de apoios, resultantes das apostas desportivas, que o coloca numa situação minoritária em relação a outras modalidades.

Falta ainda ao ciclismo encontrar um parceiro credível a nível da Comunicação Social, qual Het Nieuwsblad, que promova, e organize a grande maioria das provas do calendário nacional.

Já agora, em forma de contenção de despesas, qual a razão pela qual a Volta ao Algarve foi incluída no Circuito Proseries e que resultou para a UCI, numa mais valia de aproximadamente 50.000 euros de receitas suplementares. Será pela prova estar incluída no Proseries que estas equipas internacionais do World Tour cá vêm, ou pela data da sua realização? Todos sabemos que é pela segunda razão, daí que as vantagens para o ciclismo nacional sejam nulas e para a UCI sejam bem evidentes. Inclua-se a prova no Circuito Proseries ,em maio, e vejamos quantas destas equipas cá viriam competir: nem uma.

Enfim, o ciclismo nacional precisa de encontrar um caminho, de reunir pessoas influentes, capazes de funcionarem como lobby, junto de quem manda , e precisa urgentemente de dirigentes com ideias inovadoras, flexíveis, ajustáveis à realidade de cada momento da nossa sociedade, e que não tenham pruridos nem medos de promoverem alterações. Afinal, só não erra quem nada faz.Nos tempos que correm, as coisas não estão bem, logo…

JS