“Há a opinião pública e a opinião publicada”. A Volta ao Algarve, reflecte a opinião pública.

Há um ano atrás tinha-se escrito aqui que, dentro do contexto actual, o melhor que poderia acontecer à Volta ao Algarve era uma vitória de Remco Evenepoel.

Não foi em 2019, essa ficou com Pogacar, o que, tendo em conta o que confirmamos agora deste ciclista, foi óptimo para a algarvia. Em 2020 chega o sucesso de Evenepoel. Em bom ditado português diremos, ouro sobre azul.

Não só por isso, a Volta ao Algarve foi, mais uma vez um sucesso. Um pelotão ao alcance de poucos, competitividade, variedade, e público, muito público, estrangeiro, e de Norte a Sul de Portugal. É aqui que se vê o real impacto do ciclismo, uma modalidade, de facto, e não por imposição ou interesse, acarinhada pelo público. Como dizia Churchil, “há a opinião pública e a opinião publicada”. A Volta ao Algarve, nomeadamente, reflecte a opinião pública.

Mas, pese embora o bom esforço da TVI, e o bom acompanhamento da Eurosport, e de um ou outro orgão de comunicação social, a verdade é que a opinião publicada continua a ser condicionada. Quanto a isso, direi que não quero ser muita coisa, mas, de tudo, chamado de jornalista, era o que eu menos quereria ser. Apesar do apregoado, é a profissão menos democrática e mais imposta por ditadura. Em tudo, não só no desporto. Não tenho perfil para escravo de opinião.

Como se sabe esteve cá Evenepoel, uma estrela em ascensão. Mas muitas das atenções continuaram viradas para Thomas e para Nibali. Também para Rui Costa, e merecidas. Quanto a Nibali, para além do acompanhamento popular, foi homenageado pela organização. Críticas de Tiago Machado, até certo ponto compreendidas e justificáveis. Mas, Nibali, é Nibali. Há sete ciclistas que ganharam as três grandes voltas. Nibali é, só, um deles. Provavelmente, pelo andar da carruagem, o último dos grandes ciclista românticos, que ganha grandes voltas (todas) e clássicas. Não sabemos também quando Nibali nos visitará outra vez e, em boa verdade, até com algum grau de injustificação, o Tiago Machado também nunca disse bem da organização!

Bom tempo, público, boas etapas, embora a pedido do exterior, uma organização sem grandes sobressaltos, um pelotão como se vê em poucos lados. Dez a zero à Andaluzia! Dava quase para estar ao lado do Miguel Angel Lopez ou do Daniel Martin e “ignorá-los” um pouco, procurando Nibali, Thomas ou Evenepoel. Estruturas de equipa pouco vistas em Portugal em tão grande escala. Autocarros, carros e staff, em tal número e qualidade, impressionavam até o mais desatento. Uma grande promoção para a modalidade.

No contexto, a Volta ao Algarve é cada vez mais internacional. É óptimo para Portugal mas, porventura, mau para as equipas portuguesas. É bom competir ao lado das grandes equipas e figuras do mundo, mas o retorno, mau grado o impacto da Volta ao Algarve no mundo velocipédico, é quase nulo para uma equipa portuguesa. É cada vez mais difícil ser português (numa equipa nacional) na Volta ao Algarve.

Não se fala só dos custos imediatos (sem contar com as multas…), mas também do que significa fazer uma Volta ao Algarve. Na Volta a Portugal, a atenção concentra-se nas equipas portuguesas (e, por inerência, nos patrocinadores), mas, pelo Algarve, até para o mais rigoroso adepto do ciclismo nacional, isso, é o que menos interessa. Quando temos a Ineos ao alcance, para que vamos ter com o W52/FCPorto. Não é isto ser mau para o ciclismo nacional, é apenas uma evidência.

A Algarvia parece imparável. Uns anos com mais visibilidade de pelotão, como este, outros com menos, mas em permanente escala internacional. Portanto, cada vez mais difícil, para uma equipa portuguesa, com a escala que temos e previsivelmente teremos. E não é por culpa das equipas nacionais. Em Lagos, após a zona de meta, perfilavam-se autocarros, dos melhores, e pejados de membros do staff, das grandes equipas internacionais. No meio destes, humildemente, a pequena autocaravana do Miranda/Mortágua, com um elemento, o “faz-tudo”. São realidades sobejamente diferentes.

Não se quer com isto parar a dinâmica da Volta ao Algarve. Não. É bom que seja assim. Apenas se diz que cada vez mais as equipas portuguesas, salvo um ou outro golpe de sorte, assinarão apenas o livro de ponto, com a má contrapartida dos custos de participação serem cada vez maiores. E é bom que também se reflicta sobre isso.

Das próximas voltas, venha a Volta ao Alentejo. Nunca escondo, a minha preferida.
Luís Gonçalves

2 thoughts on ““Há a opinião pública e a opinião publicada”. A Volta ao Algarve, reflecte a opinião pública.”

  1. A importância da equipa do Velo Clube do Centro e a importância que representa para a modalidade, já foi aqui, por várias vezes, assinalada.

  2. Para fazerem a comparação entre o ciclismo interno e o externo , não me parece muito correto apresentarem a equipa Miranda/ Mortágua. A existência desta equipa do interior de Portugal é quase um milagre , tal deve-se à perseverança do Sr. Pedro Silva , dignidade não falta nesta equipa.

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