Pontos de partida: do Algarve a Vagos

Nas recentes palavras de Vincenzo Nibali, o Algarve é o “ponto de partida perfeito”, para a realização das suas ambições, que passam essencialmente pela vitória no próximo Giro, envergando as cores da sua nova equipa. Mais do que o ponto de partida perfeito de Nibali, a Volta ao Algarve tem sido nos últimos anos o ponto de partida perfeito para o sucesso na carreira de alguns ciclistas.

Não foi o Algarve que nos trouxe o primeiro vencedor de uma grande volta a brilhar em Portugal. Esse merecimento estará sempre com a Volta ao Alentejo e Miguel Indurain em 1996, seguido de Berzin, vencedor do Giro, e que por cá ganhou o GP JN em 1997. O Algarve teria que esperar pelo então benfiquista Mauri (aliás, a única vitória benfiquista na algarvia) em 1999.
Mas o certo é que a Melchor Mauri se foi seguindo uma suculenta lista de vencedores, já com grandes voltas, como Zulle ou Contador, e outros a potenciar a vitória em grandes voltas, como Geraint Thomas ou Primoz Roglic.

E o sumo essencial deste ano talvez resida nas estrelas mais jovens. Quem sabe se daqui a uns tempos estaremos a dizer que a primeira grande luta entre Pogacar, e Evenepoel, e Van der Poel, se deu em terras algarvias. Esse, seria o ponto de partida perfeito, para nós, portugueses.

Ponto de partida, também se deu, na nossa época 2020. Alberto Gallego, regressou em grande com vitória em Vagos. Não é qualquer um que consegue fazer o que fez o espanhol. Muito tempo de suspensão e paragem competitiva. Cumpriu castigo e regressou. Simples. E regressou para demonstrar que é de facto um ciclista.

Mas se, quanto a mim, o ponto de partida positivo foi este, numa altura em que tanto se fala de profissionalismo e competência entre ciclistas, dirigentes e treinadores (estes últimos então, por ora, têm de ser quase doutorados), também seria importante que outros intervenientes de corrida acompanhassem a evolução dos tempos e essa crescente de competência. Calcular tempos médios no ciclismo (segundo consta) é perceber quase nada da modalidade, tais são as variantes de uma corrida. Os regulamentos são apenas uma ferramenta que deveria ser bem entendida pelos comissários. E, no contexto, para que não restem dúvidas sobre a consideração própria, não falei com ninguém da equipa do vencedor, nomeadamente.

Também a assistência médica tem de ser revista. Não podemos, por exemplo, estar à espera da ambulância que segue na prova, para assistir ciclistas na meta (vários minutos depois). Pese embora o bom esforço da equipa médica já presente, se ao invés de terem de ser assistidos dois ciclistas, tivesse existido uma queda massiva no sprint, como seria? No ciclismo não acontecem mais desgraças por mera sorte.

Última nota, retomando um artigo anterior, que acabou por ser empolado na questão menos importante, o comentário na Eurosport, em detrimento de uma alteração regulamentar mais do que necessária.

Na prova de abertura, a pedido de um amigo de longos anos, levantei-me cedo, estive em Albergaria, fui apanhar chuva e frio para Talhadas, na zona de abastecimento, tomei o caminho de Vagos, saí de Vagos com um ciclista em direcção ao Hospital, estive três horas no Hospital (nem foi mau!), jantei pelas 22 horas, cheguei a casa, já passava da meia-noite, onde estavam, já a dormir, as duas crianças que tenho em casa, e que não vi nesse dia. No dia anterior, como desde há vários anos a esta parte, treino com escalões de formação, preparando mais uma época com um calendário exigente. Tudo, sem receber um tostão. Tudo, pro bono, em favor do ciclismo, sem nunca ter abandonado ninguém pelo caminho. Daí a legitimidade de não admitir certos comentários, designadamente, relacionados com a falta de assistência e acompanhamento aos ciclistas.
Luís Gonçalves