Lições de S.Juan

A Volta a San Juan abriu-nos de forma evidente algumas novas tendências do ciclismo mundial, mas também nos faz repensar sobre algumas certezas.

Embora já em tempos, nesta fase da época, existisse alguma deslocação de equipas europeias para a América do Sul, sobretudo a partir dos anos 80 do século passado, certo é que o grande boom é recente e terá muito a ver com o Tour de San Luís.

A Volta a San Juan, uma bem sucedida corrida interna na Argentina (corre-se desde 1982) aproveitou o balanço e uma boa parte do pelotão continuará pela América do Sul, desta feita, na Colômbia. Diz-se na Argentina que, num futuro próximo, até poderão coexistir San Luís e San Juan. Pelo que se vê, o público sul americano adere e, não menos importante do que isso, apesar de ser a volta a uma região (San Juan), a corrida tem implantação nacional e interesse das autoridades nacionais. Embora sejam, às vezes, países de uma liderança instável, no ciclismo, o eixo colombiano-argentino parece com cada vez mais capacidade de oferecer séria concorrência à Europa, neste tipo de provas.

Evenepoel é o jovem do momento, quase o ciclista do momento. Em San Juan também deu para confirmar que já beneficia de estatuto de grande estrela da modalidade, por forma evidente, pela protecção que já lhe é dada pelos dirigentes e agentes do ciclismo, algo que até já tinha-mos aflorado no último campeonato do mundo de CRI, mas que agora se tornou mais claro.

O jovem belga apresenta-se com uma vontade de ganhar só própria dos grandes campeões e que tem subjacente uma boa dose de egoísmo e, por vezes, confiança desmedida. Com o tempo aprenderá a dosear um e outro, sendo que, a confiança desmedida é normalmente fatal.

Em San Juan, na etapa rainha, Evenepoel estava mal colocado numa zona onde durante várias edições da prova acontecem cortes no pelotão. Perdeu tempo, assumiu as despesas de corrida como um verdadeiro ganhador (e isso é bom) mas talvez fosse com sede a mais ao pote. Repare-se que o pelotão em San Juan é bom, mas não é nada de mais. Noutro pelotão essa sede seria irreversível! E, mesmo em San Juan, entra Óscar Sevilla. Foram definitivamente os 43 anos do espanhol que controlaram os ímpetos de Evenepoel. Os 43 anos e toda a sua experiência e qualidade. Talvez por aqui, num processo que ainda é de aprendizagem, a grande lição de Evenepoel em San Juan.

As lições e a forma de Sevilla também nos deixam a pensar no quão injustos são alguns processos. Se é facto que no rescaldo da Operação Puerto alguns desportistas desapareceram de cena, também é facto que outros ainda hoje, volvidos bastantes anos, espalham qualidade. Também é facto que a maioria dos grandes nomes do ciclismo envolvidos, ou foram ilibados pela justiça civil (em vários países), ou não tiveram condenações federativas. Estiveram suspensos, por suspeições.

Alguns, à falta de melhor por parte, nomeadamente, da UCI, foram remetidos ao exílio. Mais flagrantemente Óscar Sevilla e Paco Mancebo. Passaram a competir, com resultados, num calendário que, ao contrário do que possa parecer, não é fácil e é disputado. E imagine-se a mais valia que tem sido Sevilla no desenvolvimento do ciclismo colombiano ou imagine-se o que ambos ainda poderiam ter feito nas grandes voltas europeias.
O tema pode ser fracturante. Há um anátema sobre tudo o que se relacione com a Operação Puerto. Independentemente de tudo o que se pense a verdade é que serviu para separar o trigo do joio. Do joio já ninguém se lembra e, do trigo, ficou a qualidade sendo que alguns ainda aí estão a dar lições de ciclismo ao mais jovens. No fundo não podemos limitar-nos a ver a questão com palas nos olhos. Porque olhando só num sentido acabamos por querer perceber pouco de ciclismo e menos ainda de justiça.

Numa última e rápida nota. Na última etapa que passou pela cabeça do Martingil para, daquela forma e naquele contexto, se querer “meter” no comboio da Emirates para Gaviria? Ou para atacar após a queda na primeira etapa quando num grupo mais restrito e à beira daqueles ciclistas deveria era resguardar-se e aproveitar o momento certo. Terá pensado que os lançadores iam parar?
Luís Gonçalves