O Algarve no futuro do ciclismo nacional

A Volta a San Juan tem empolgado os aficionados da modalidade. Talvez porque seja das primeiras provas do ano. Provavelmente, se fosse disputada em Junho, não teria tanta atenção. Desde logo porque alguns dos ciclistas presentes agora na Argentina, não estariam lá.

Por ora, o tempo é bom, as etapas são equilibradas, os alojamentos não devem ser maus, é uma corrida onde se notam os excessos latino americanos (como confetis nas chegadas ao sprint ou veículos mal colocados, incluindo os de corrida) mas interessante, com historial e, como o mundo do ciclismo continua a sua mudança acelerada, inscrita no Proseries, porventura, por se realizar na Argentina.

Mas são de facto os ciclistas que fazem as corridas. O interesse reside aí e muitas destas provas encontraram nesse campo a sua galinha dos ovos de ouro. Criar provas com capacidade de atracção para a preparação de uma época longa, mas que não deixem de ter interesse competitivo. Na sua maioria, países periféricos ou até há bem pouco tempo arredados da modalidade, como os africanos ou asiáticos, com um volume concorrencial cada vez maior, mesmo em território europeu.

Por esse mundo fora, os modelos são idênticos. Provas curtas que aproveitam o bom tempo regional, com equilíbrio de montanhas, etapas planas e CRI, geralmente em zonas turísticas e com boa capacidade de alojamento, com um passeio ou um granfondo, sendo que este ano San Juan trouxe-nos o imbatível Sagan Granfondo. Provas que os ciclistas, mesmo os mais famosos, gostam de ganhar, mas onde não se sentem, obviamente, pressionados a isso.

Talvez se possa dizer que Austrália, Colômbia, Argentina, Espanha e Portugal lideram, por enquanto, este mercado. No contexto, apesar do que o Proseries não vem trazer nada de bom ao ciclismo e do muito que vem trazer de mau, será importante a Volta ao Algarve estar incluída nesse calendário. Porque os concorrentes mais directos estão, apenas isso. Pelo demais, estar ou não estar, não dá nem tira nada à Volta ao Algarve, porque todas as outras características atractivas se mantêm.

E essas características têm de se manter em função dos ciclistas. Ou seja, é diferente termos numa prova a Ineos, ou o Froome, Bernal ou Thomas. É diferente ter a Trek/Segafredo, ou Nibali. Como para o Algarve foi completamente diferente ter a USPostal, ou Lance Armstrong. Nesse ano de 2004, lembro-me de estar no CRI em Tavira e toda a gente perguntar se o “amaricano” já tinha passado!

Até as grandes voltas mudam. Grandes Partidas, como são agora moda, em Israel, Hungria, Inglaterra, Irlanda, na Holanda como este ano a Vuelta que passará por quatro países diferentes, incluindo Portugal, enfim, Voltas cada vez mais internacionais, algo raro de ver há meros vinte anos atrás que dão ideia de um mercado imensamente apelativo, mas também cada vez mais concorrencial.

Voltando às provas de início de época, no tal mercado que se prevê cada vez mais apelativo e concorrencial, se todas as outras características são idênticas, o que pode de facto fazer a diferença de sucesso, bem mais do que as equipas, são os ciclistas presentes. Na comunicação social é, essencialmente, dos ciclistas que se fala. O adepto ocasional pode saber quem é o Froome, e reconhecê-lo, sem deixar de pensar que ainda corre na Sky! O ciclista, atrai adeptos, atenção mediática e, na importante máxima de 2004, se o Armstrong se prepara no Algarve é porque o Algarve é bom.
Numa pequena nota final, de um assunto que daria pano para mangas, tendo em conta o que é a nossa realidade nacional, a Volta ao Algarve, chega-nos como grande bandeira internacional. É aí que devemos concentrar as maiores atenções organizativas, sob pena de dispersão fatal para o ciclismo português. Já se tentou colar a Volta ao Alentejo, sem grande sucesso. O sucesso da Volta ao Alentejo é outro, e não menos importante. Outro mercado, diga-se. Tal como a Volta a Portugal tem de continuar a ser feita para o nosso mercado e para consumo próprio. É isso que os portugueses (que dão audiência de massas e a consequente visibilidade da modalidade) esperam da Volta a Portugal, uma prova histórica, épica e com vários dias de superação no tradicional calor do Verão português, onde se torce sempre pela vitória de um novo herói nacional. Quem dá audiências de massas (e visibilidade… de que a modalidade precisa como de pão para a boca) à Volta a Portugal, não sabe quem é o Evenepoel ou o Van der Poel. Mas quem vê a Volta ao Algarve, já sabe.

Tudo muito resumido, com alguma insensibilidade, para o consumidor da Volta ao Algarve, interessa a vitória de Contador ou Nibali. Para o consumidor da Volta ao Alentejo, a vitória de Jasper Stuyven ou Enric Mas. Para o consumidor da Volta a Portugal, a vitória de Joni Brandão ou João Rodrigues.

Por mais que nos custe, nas novas e mais recentes visões da UCI, não cabe o ciclismo português, ou tem uma parte residual. Pois, avançando para outro campo, se nem o futebol português cabe nas aspirações futuras da UEFA!
Por isso mesmo, regressando ao ciclismo, teremos cada vez mais de defender, cada um dos diferentes interesses internos, que nunca deixarão de nos dar algum bolo global de sustentabilidade, numa modalidade permanentemente presa por arames. Isso, e tal como deveria fazer, também, a Federação Portuguesa de Futebol, não dizer que sim a tudo o que vem de fora.
Luís Gonçalves