O regresso da lei seca

Não será preciso regressar ao passado, a um passado que não é assim tão distante. Mais distante estão os anos vinte, os loucos anos vinte do século passado, e a famosa Lei Seca nos Estados Unidos da América. Daria pano para mangas, essa Lei.

Mas falando de um passado menos distante, quem acompanhar o fenómeno ciclístico, saberá que nas corridas, nomeadamente no grande Tour, à falta de melhor assistência, era frequente os ciclistas assaltarem (com consentimento!) os frigoríficos das populações por onde passavam e de onde retiravam o que lhes matasse a fome e sobretudo a sede. Se fosse com uma boa garrafa de espumante, tanto melhor! Uma cervejinha fresca, óptimo!
Recuando, cervejinha, que também estava à partida da primeira Volta a Portugal em Bicicleta, em Lisboa, nos bidons dos mais sortudos, porque, as leis em Portugal sempre foram tudo menos secas.

Sem ser preciso ir ao Tour, na nossa Volta, em tempos houve ciclistas que não dispensavam na Serra da Estrela um impulso de moral composto por espumante da Bairrada e uma água Carvalhelhos.

Eddy Merckx adorava, e adora, na medida do possível, como qualquer bom belga a sua cerveja. Mas, dos mais reconhecidos ciclistas do mundo, para o caso, talvez o exemplo mais ímpio seja o de Fausto Coppi. Para o italiano, cerveja, vinho, espumante e até um bom charuto. Tudo o que não se espera ver hoje num desportista!

E um ciclista a fazer publicidade a uma marca de vinhos? vários, nas camisolas, aqui por Portugal e, em especial, Vitor Gamito, que em tempos não muito recuados aparecia num anúncio, num jantar de equipa durante uma competição (pelo menos era a imagem que se pretendia fazer passar) comendo, com o seu copo de vinho ao lado e tendo ainda por companhia uma garrafa de Porta da Ravessa (tinto), marca que era então patrocinador principal da equipa.

Não será preciso voltar aos “assaltos” nem aos exemplos exagerados de Fausto Coppi. Mas será que a proibição total também será útil?

A Lotto-Soudal, proibiu ciclistas (que já eram proibidos) e agora todo o staff de ingerirem bebidas alcoólicas durante as competições, salvaguardando vitórias, aniversários e situações excepcionais.

Se a equipa fosse latina, ou bem que as vitórias eram muitas, ou todos os dias existia gente a fazer anos ou eram quase tudo situações excepcionais. Quanto a Lotto-Soudal diz que a alternativa de convívio poderá ser o café. Enfim, já dizia o nosso Venceslau Fernandes que ficava motivado com dois cafés… acompanhados de uma cerveja preta!

Apesar de negar a relação, é certo que a Lotto-Soudal, teve alguns problemas a época passada. Mas a abstenção às coisas, a várias coisas, para alguns a quase tudo, parece estar na moda, quando no fundo, desde sempre, tudo deve ter a sua medida certa e a liberdade de gerir essa medida certa é o que nos faz pensar que, ainda assim, a democracia é o regime menos mau de todos os que conhecemos.

E depois repare-se num pormenor interessante. A Lotto faz a apologia da abstenção do que pode ser um mau vício, mas ao mesmo tempo faz publicidade intensa a algo que também é um vício degradante para muita gente: o jogo. Como diria o enorme e saudoso Fernando Pessa: “E esta, hem?!”
Luís Gonçalves