O Popeye e as substancias a vigiar

É sabido que a dopagem é uma ciência duvidosa. Acima de tudo porque é, de modo científico, recente. Mas também porque o que hoje é uma substância dopante (para resumir as várias definições existentes de substâncias) amanhã pode não ser e o que hoje não é, amanhã pode ser, existindo ainda com frequência a terceira via do ser nuns anos e não ser noutros, dependendo do momento, das doses ou dos métodos de administração utilizados, ou da modalidade.

Existem ainda inúmeras discussões (normalmente abafadas) sobre a utilização de determinadas substâncias que, para o cidadão comum não desportista, são uma mais valia médica, e para o cidadão desportista são um problema de saúde pública. Talvez um contra senso. Ou seja, nesta matéria, o limbo entre o que será uma questão de saúde pública ou não, está ainda muito mal definido. Ninguém nos garante que daqui a cinquenta anos a eritropoetina (ou algo semelhante), factor de tantas curas médicas, não seja considerada legal e até aconselhável no uso desportivo, pela intensidade e desgaste que a actividade física de alto nível provoca no organismo humano. Não sendo médico, não sei se será isto uma refinada asneira. Mas o que se vê é que a alteração das várias listas existentes, é constante, e produtos que eram o “diabo” há uns anos são já hoje, dependendo de determinados factores, perfeitamente legais.

Embora alguns, a qualquer momento, estivessem sempre nesse escalão, na generalidade, o que é dopagem e um dopado, depende muito do tal momento e das listas existentes. No fundo, bem ou mal, também é com o momento que tem de se lidar.

O ano passado chega-nos à lista de substâncias a vigiar (lá está, são várias listas a consultar) o Tramadol. E, no momento, o Tramadol parece que tramou alguns menos previdentes (no ciclismo dos mais entrados na idade).
Mas este ano, 2020, chega a essa mesma lista a ecdisterona. Em 2020, quase cem anos depois da criação da personagem Popeye (1929) ficámos a saber que, afinal, o marinheiro americano, é dopado. Deve ter sido a agência americana, especialista em recuar no tempo, que descobriu. Tudo porque come espinafres a mais. Ao que consta o consumo abundante de espinafres (aí uns 4kg por dia) produz a tal substância, que melhora o desempenho físico, e que está agora na lista de substâncias a vigiar pela Agência Mundial Anti-dopagem. Pelo zelo e rigor adoptado pelas agências de controlo, talvez seja melhor os ciclistas deixarem de comer uma natural sopa de espinafres.
E assim é. Faz-se um estudo na Alemanha e aparece mais uma substância (natural) a vigiar. Mas, ainda não se fez nenhum estudo à Cetona. É uma questão de momento, porque o Gin está na moda.

Bem, boa disposição à parte, sempre se dirá (aos negligentes, porque alguns dos outros sabem bem do que se fala) que nas recomendações da AMA, que passam às agências nacionais, lá continuam a estar algumas substâncias encontradas em suplementos dietéticos ou de emagrecimento, muitos deles vendidos como naturais. Meus amigos, a maioria desses produtos estão carregados de substâncias proibidas que, naturalmente, não aparecem no rótulo. De outra forma deixavam de ser “produtos naturais”. Anda um tipo a pensar que toma comprimidos de alcachofra e afinal também anda a tomar Furosemida! Vejam, também, os avisos do Infarmed.

No ciclismo de formação, redobrada atenção aos jovens asmáticos (cada vez mais). Há produtos e modos de administração legais e outros ilegais, mas cuja a utilização pode ser permitida. Mais redobrada atenção às populares “drogas de concentração”, que qualquer pediatra (ou psicólogo) receita a uma criança mais agitada, sem se saber já muito bem o que é uma criança agitada. Lá aparece, normalmente, a Ritalina. E esta já é antiga.

Como já se disse, o limiar entre o que é saúde pública e o que não é, ainda está mal definido. Mas, anualmente, está bem definido o que é um controlo positivo e o que não é. E a barreira entre ter um controlo positivo (negligente!) e não ter, é fácil de ultrapassar e, difícil de esquecer. E que não sirva isto de cartilha para maus instintos. Não é essa a intenção.
Luís Gonçalves

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