No rumo de 2020

A rotina mantém-se. Mais um dobrar de ano, mais um início de nova época no ciclismo. Com as equipas constituídas no seu núcleo essencial, com o calendário conhecido também na sua forma essencial, enquanto pelo estrangeiro se fala em training camps, por Portugal vão-se fazendo, na medida do possível, pequenos estágios ou concentrações.

Concentrações, não tanto para treinar mas mais para dar a conhecer novas estruturas ou, talvez mais importante, para novas estruturas se conhecerem entre si.

Mas não deixa de ser uma rotina. Uma rotina cansativa. Terminar a época, preparar a nova época, ir a várias galas, sempre a preparar a nova época, iniciar o ano, estágios ou concentrações, iniciar a nova época competitiva (na estrada, em permanência a vertente mais visível), com bastante “fome” no início que se vai desvanecendo ao longo do ano.

E que esperar de 2020? O vinte, vinte. Serão de novo os loucos anos vinte? No século XX assim o foram. Quanto a nós, portugueses, no ciclismo, nasce-nos a Volta a Portugal em Bicicleta (1927). Mas, por analogia, ir a 2027 talvez seja querer ir demasiado longe.

Em 2020 espera-nos, desde logo, um ano olímpico, logo um ano de ciclo eleitoral na UVP/FPC. Novidades? Não parece.

Às equipas espera um ano difícil. Os patrocinadores vão-se cortando, porque se antevê, previsivelmente, novo período conturbado na vida económica. O final de 2020 ditará muita coisa no futuro da modalidade em Portugal. Os organizadores de provas terão a mesma dificuldade. Vão valendo ao ciclismo os habituais “amigos” da modalidade, ora empresários, ora autarcas que, felizmente, vão persistindo no apoio que dão. De todo o modo, sempre foi assim. Mas, os capitais, para além de curtos, também estão cada vez mais dispersos. Nos bons tempos de ciclismo da Sicasal-Acral, por exemplo, (que já tinha quase um trainig camp!) não se ouvia falar em futsal, ocasionalmente em rugby e nada em basebol.

Mas se a vida se avizinha difícil para organizadores e equipas, onde se reflecte logo essa dificuldade é nos ciclistas. Também não é novidade para os ciclistas portugueses (a suprema maioria) um período menos bom. Estão também habituados a contornar esse obstáculo. Mas custa mais quando se vem de um período de alguma expansão para novo período de atrofia. Porém, mesmo nestes períodos, mais conturbados, deverão sempre as equipas pautar-se por critérios de honestidade financeira. Já se sabe que muito do que se vê regulamentado não é cumprido. Mas o que é acordado com o ciclista, portanto, um compromisso de vontades (ainda que condicionadas) deve ser sempre cumprido. De outra forma desvirtua-se a concorrência desportiva saudável pautada por critérios com alguma ética, mais do que com qualquer controlo antidoping positivo. Não é caso exclusivo do ciclismo, mas é feio.

Bem, também aqui podemos dizer que alguns ciclistas, ou têm falta de ambição desportiva, ou têm ambição monetária desmedida e, muitos destes últimos, ainda acreditam que está para chegar o quarto segredo de Fátima.

A vida dos ciclistas não será de facto um mar de rosas em 2020. Pese embora um ou outro período melhor, nunca foi. Mas o sonho de ser um verdadeiro corredor de bicicletas tem suplantado tudo.
Quanto a mim, o meu maior desejo ciclístico, público, para 2020 é ver, finalmente, o Tiago Ferreira condecorado pelo Presidente da Republica. Uma Ordem qualquer, nem que seja a Ordem de Freixo de Espada à Cinta, mas, o reconhecimento merecido dele e da modalidade. Porventura também seria bom lembrá-lo, ao Presidente.
Luís Gonçalves