A figura do ano

É óbvio que nestas escolhas, as considerações pessoais são dominantes. Também é natural que escolher alguém para figura do ano, em qualquer actividade, possa proporcionar injustiças, até porque, tantas vezes, as maiores figuras são quase invisíveis. Depende muito também dos padrões que seguimos. Será completamente acessível olhar para as figuras que estão expostas aos olhos de todos, mas também é tendência olhar para as mais importantes corridas.

No contexto, não deixaremos de considerar Egan Bernal, a figura do ano no ciclismo. Nunca será desajustado considerar o vencedor do Tour a figura do ano. Mas Bernal, apesar de não ser pouco, é bem mais do que um simples vencedor do Tour. E não é preciso entrar aqui em consideração a Volta a Suiça, o Paris-Nice, ou o terceiro lugar na Lombardia. O colombiano é o primeiro vencedor sul americano do Tour.

Natural de um país que adora ciclismo e que há muitos anos tem algumas das maiores referências mundiais, ser o primeiro vencedor do Tour é assinalável. Mais ainda, ser o representante de todo um continente onde o ciclismo tem fortes raízes. Sobretudo neste aspecto, a vitória de Bernal, é, mais do que um simples sucesso, um acontecimento social, da maior importância para o ciclismo global que tem assim, finalmente, um conquistador da maior prova velocipédica do mundo na América do Sul. Um exemplo definitivo para todos os outros sul americanos.

Está aqui, no fenómeno social, uma visão quase exclusivamente económica da questão. Mas, Bernal, contorna isso. Foi fácil para todos nós admirarmos o sucesso do colombiano. Foi criada uma relação de imediata empatia, acessível a poucos. Relação que nunca foi criada com Cadel Evans, por exemplo, também ele o primeiro e único de um continente a vencer o Tour. Nesse aspecto, até onde nos foi possível, admirámos Lance Armstrong. Não foi pioneiro norte americano, mas bem mais reconhecido do que Greg Lemond.

Será por isso Bernal a figura do ano 2019. Diremos até que ficará para sempre como uma das figuras do ciclismo, como Lucho Herrera, primeiro vencedor colombiano de uma grande volta, ou Santiago Botero, pela visão que sempre nos foi dada dos colombianos, um improvável campeão mundial de contrarrelógio.

Verdadeiramente, Egan Bernal, pelo que significa tudo o que o envolve é bem mais do que um vencedor do Tour. Em bom rigor, também se deverá dizer que tem por ora todas as simpatias mundiais. Também Froome as tinha quando venceu a sua primeira Volta a França (então, ainda a imagem do “infeliz” que tinha de esperar pelo Bradley Wiggins!). O vencedor ocasional, com o enquadramento e modo de vida certo colhe facilmente todas as simpatias do mundo. Já o vencedor persistente ou que não deixa ninguém indiferente começa a dividir o mundo. Mas não deixará de ser nestes últimos que residirão os verdadeiros campeões. 2019 foi um anos de sonho para Bernal. Veremos daqui por diante.
Luís Gonçalves