Os cinquenta anos da UVP/FPC em palavras sempre oportunas

Como muitos saberão, a 14 de Dezembro de 2019, a UVP/FPC faz 120 anos. Em tantos anos imenso se poderia dizer, tanto, que pecaremos sempre por defeito. Mas numa simples conta matemática, quem faz cento e vinte anos, também já fez cinquenta anos.

Ora, para não dizer-mos apenas tudo o que todos sabem dizer, num pequeno exercício histórico, rebuscando os meus arquivos, porque sabia que o tinha, lá encontrei um boletim comemorativo dos cinquenta anos da UVP/FPC, portanto, publicado em 1949.

Em páginas gastas pelo tempo, mas perfeitamente visíveis, na capa eram anunciadas e retratadas “algumas figuras do passado na história do ciclismo em Portugal. Em 1949, José Bento Pessoa, Alfredo Luiz Piedade (então, recordista da subida à Glória) e os inevitáveis Trindade e Nicolau.
Folheando as páginas, que começam com publicidade (já lá iremos a alguma) apresentam-se textos quase impensáveis nos dias que correm, de tão bem escritos que são. Sua excelência o Director Geral do Desporto dizia, sobre os cinquenta anos e a UVP/FPC: “não é de facto um caso banal, pois representa uma continuidade de trabalho sério e eficiente que lhe dá direito ao respeito e à consideração de todos os desportistas.

Pela iniciativa comemorativa outros escribas diziam: “os actuais dirigentes merecem aplausos pela iniciativa. Torna-se preciso relembrar factos que uns desconhecem e outros esqueceram (…) o ciclismo, desde o seu início, apaixonou multidões e interessou intelectuais.

Este boletim oficial inclui uma separata com indicações (catálogo) sobre a primeira exposição histórica sobre ciclismo. Em numeração de fotografias e artefactos indicavam a quem quisesse visitar a exposição o que significava, por exemplo, cada imagem numerada, começando pela 001, que dizia “Acrobacia em bicicleta – um exercício pelo Dr. Tavares de Melo, que foi excelente praticante de todos os desportos mecânicos”, prolongando-se por mais cerca de 400 números, incluindo uma adenda, escrita à máquina, enumerando corridas e eventos que já não lembram a ninguém.

Se a fundação foi a 14 de Dezembro de 1899, mais difícil será saber o momento da ideia da fundação. Pois numa rubrica que nos indica um pouco de história sobre a fundação da UVP, com dados precisos do local e dos presentes, lá nos aparece a data de 1 de Junho de 1899 como a do “lançamento da ideia”.

Como já foi referido, então, como hoje nada se faz sem publicidade. Primeira página, por baixo do anúncio da Casa Sport Ideal Cartaxense, de José Maria Nicolau, Bicicletas Nicolau – aluguer e venda, surge na altura o inevitável Ovomaltine “para conseguir uma boa classificação”, não diz lá mas digo eu, primeiro patrocinador da Volta a Portugal em bicicleta.
Mais à frente as bicicletas BSA, da Silva e Neto & Cª, Lda, da Anadia, anunciavam os modelos de 1950, das “melhores bicicletas de todo o mundo”. Número telefónico de contacto: 9. Isso, só nove!

Dirigido aos desportistas, todos, vendia-se Gulliver, para “raquíticos, anémicos ou sem o necessário quantitativo de vitaminas”, prometendo-se “possibilidades de alcançar ou manter a forma” à base do saboroso paladar de “fígados de bacalhau conservados no próprio óleo”.

É importante conhecer a história da modalidade ou, relembrar a história da modalidade com todos os seus pormenores. Os tais factos que “uns desconhecem e outros esqueceram” Também é em boa parte assim que se constrói o futuro.

Agora que passam cento e vinte anos, do extenso e informativo boletim dos cinquenta anos da UVP/FPC, fico-me com “palavras sempre oportunas” (assim foram chamadas) do presidente da primeira Assembleia Geral realizada em 18 de Junho de 1900: “Somos por enquanto poucos, mas basta que a vontade de cada um de nós represente mil vontades para valermos por muitos”.
Luís Gonçalves