O sonho da Efapel

Já faltou mais para o dia 16 de Fevereiro de 2020. Nesse dia, pela região de Aveiro, o pelotão nacional dará as suas primeiras pedaladas na nova época. A cada ano, um dia especial, quase de regresso às aulas, depois de um longo período de férias.

Vêem-se as bicicletas, os carros, os autocarros, reencontram-se pessoas, avaliam-se as estruturas e produzem-se sonhos. Embora o ciclismo português não esteja macio, sobretudo para os ciclistas, não se deixam de produzir sonhos. Um pelotão com uma marca vincada de juventude não poderia deixar que a coisa se fizesse de outra maneira. Mau seria, se os mais jovens, não projectassem uma vida cada vez melhor e de mais sucesso.
É certo que o recurso aos jovens, a estes jovens, não vem só da boa vontade das equipas ou por elaborados planos federativos. Como se costuma dizer, “quem não tem cão, caça com gato”. E, é bem mais barato e sustentável o salário (por boa vontade chame-se assim) de um jovem ciclista.

De qualquer forma, mesmo podendo ter origens mais dúbias, esta aposta não deixa de ser positiva porque também a cada ano tem o condão de nos permitir confirmar ou descobrir valorosos ciclistas para o pelotão nacional e, com alguma frequência, para o pelotão internacional. No contexto, e com felicidade, talvez o pelotão 2020 seja especialmente produtivo, numa tendência que já vinha dos escalões inferiores das últimas três ou quatro épocas, nomeadamente, Cadetes e Juniores.

Mas projectando sonhos, o maior de todos, cá pelo burgo, será sempre o da vitória na Volta a Portugal. Já esse, realisticamente, será um objectivo ao alcance de poucos. Sem descuidar qualquer surpresa, que sempre as vai havendo ao longo dos anos, a luta, pelo menos por enquanto, parece estar dividida entre o W52/FCPorto e a Efapel, no fundo, à semelhança dos anos mais recentes, a luta bem definida de Joni Brandão, contra um ciclista azul e branco.

Nesse sonho de sucesso com Joni Brandão (que repetiria o que só David Blanco conseguiu), a Efapel, disparou para quase todo o lado. Mas, lá está, tanto o W52 como a Efapel, não têm plantéis tão jovens como outras equipas. Pela capacidade financeira, preferem ciclistas mais experientes e que, à partida, oferecem mais garantias de sucesso.

Assim, a Efapel, pese embora ter perdido Casimiro, contratou alguns dos nomes mais sonantes do pelotão português da actualidade. Quase uma Ineos à portuguesa, nas contratações.

Com um objectivo definido, contratou a experiência de Tiago Machado, manteve a de Paulinho, dois bons ciclistas, mas talvez demasiadamente habituados a outro ciclismo, Mendonça e Fonte, que parecem ter preferido a estabilidade à ambição e livrou o W52 de António Carvalho, um extraordinário ciclista, mas com o seu quê de imprevisível.

Tem o W52, cinco vencedores da Volta a Portugal. Pelo menos quatro em funções. Vê regressar Amaro Antunes e que dizer disso! Tem Vinhas, Mestre e Caldeira, sobretudo os dois últimos numa difícil função que desempenham como ninguém em Portugal, função e tarefa que é o segredo de tantos sucessos. Têm, com frequência, um verdadeiro treinador na estrada (não o do carro!) e uma dinâmica de vitória instituída. Não se sabe as convulsões que pode provocar Alarcón, com a sua suspensão, mas, admitindo que corre tudo dentro da normalidade a missão da Efapel parece partir ainda um pouco em desvantagem.

O futuro, a estrada e sempre alguma sorte o dirão. Mas, num contexto de vantagem ou desvantagem, num mero exercício académico e considerando que todo o plantel estará disponível, idealizem os leitores a equipa (equilibrada) de um e de outro na Volta a Portugal e veja-se onde existem mais dúvidas na escolha e, depois da escolha, o que podem fazer com cada ciclista em cada etapa. Apenas imaginando um cenário de liderança de Alarcón, poderia a Efapel, dar grande margem de manobra a Amaro Antunes, João Rodrigues, Edgar Pinto ou até a Vinhas (já sabemos que não) e a Ricardo Mestre?!
Luís Gonçalves