” – o importante papel das Federações nacionais: sustentar o ciclismo no seu território”

Numa lógica de interacção com os leitores e de construção de ideias sobre a modalidade e o seu futuro, recebe-se a sugestão do leitor Jorge Garcia, sobre as mudanças no Worldtour.

Julga-se que a sugestão seria mais centrada nas equipas em si, sobre os novos modelos organizativos que terão impacto relevante nas lista de convidados das grandes voltas e no ciclismo desses países, tema já abordado em artigos anteriores. Aproveitamos a ideia, mas fazemos uns desvios.

Isto porque, no fundo, o Worldtour não mudará assim tanto em 2020. O aumento de dias de competição vem sendo (demasiadamente) crescente. As equipas e estruturas presentes são, essencialmente, as mesmas. O investimento monetário também é cada vez maior. As provas, são aquelas que esperamos do Worldtour, a que se somam todos os anos, uma ou outra competição vaivém, que ninguém sabe qual é, realizada de preferência num país extra europeu.

Porém, se o Worldtour, parece mudar pouco, continuando uma linha de acentuação de diferenças para o ciclismo abaixo deste escalão, é precisamente nessas diferenças acentuadas que deveria residir a nossa fonte de preocupações.

Não é o Proseries, porventura bem pelo contrário, que resolverá os problemas das equipas e competições de escalão inferior ao Worldtour. Muitas vezes, não inferiores a essas, apenas de escalão inferior. O calendário Proseries, também é extenso e complexo. Aparentemente, será a única oportunidade para as novas Proteams terem algum destaque.

Provavelmente, um calendário que terão de cumprir na íntegra, se tiverem algumas pretensões a subir na hierarquia da modalidade, ou se para tal forem impulsionadas pelos patrocinadores, obviamente, em busca de alguma visibilidade restante.

Ora, se para o Proseries e para as Proteams, já só sobram algumas migalhas do Worldtour, pergunta-se, o que sobrará, sendo abrangente, para o escalão continental. Se tanto as equipas Worldtour, como as Proteams, estarão ocupadas por calendários exigentes, que capacidade de atracção terá, por exemplo, a nossa Volta para “trazer” de fora equipas com alguma competitividade.

Vista a questão de outra forma, também a inclusão da Volta no Proseries, traria pouco de novo. Seria pouco mais do que o mesmo. Um pouco como o Algarve que, na altura em que se realiza e com o prestígio que já tem, tem sempre capacidade para atrair algumas das melhores equipas, ao contrário do que tem acontecido com a Volta a Portugal. Mas, percebe-se a inclusão no Proseries, da Algarvia, numa lógica de concorrência directa, sobretudo com a Andaluzia.

Recorrendo a outra modalidade, não é preciso ler muito para saber o que é que a UEFA quer do futebol europeu com as novas reformas que pretende implementar. As tendências desportivas são cada vez mais económicas, aglutinado-se num modelo dos cada vez mais ricos e dos cada vez mais pobres. Pode ser bom para a economia (pelo menos de alguns), mas não sei se será bom para o desporto. A Champions é cada vez mais aborrecida.
Também o fosso entre o Worldtour e o resto está cada vez mais fundo. Para o ciclismo das equipas continentais, ofensivamente, fundo. E o problema não será o Worldtour, mas a forma como quem manda está a esquecer-se ou a abandonar o restante.

Repare-se, no entanto, muito bem. Antevendo um inevitável futuro próximo, há Federações que já há uns tempos, porque a situação não é nova, começaram a preparar a sua nova forma de estar. Na Colômbia, não há corridas no Worldtour, nem no Proseries, a Volta à Colômbia tem quinze dias, e têm uma Volta do Futuro com seis, a que juntam uma Volta Feminina. São um país exportador, é certo, mas com um ciclismo interno vivo e com resultados internacionais de grande relevo.

E, repara-se melhor ainda. Se há nação que tem modelos desportivos de sucesso e é ponta de lança da economia é os EUA. Mas os EUA, parecem não partilhar muito estas ideias construtivas da modalidade. Já foi maior a presença de equipas americanas no Worldtour e no Proseries. A Volta à Califórnia, definitivamente o melhor exemplo de sucesso da UCI, fora da Europa, faz um interregno em 2020. Procura um novo modelo económico e atractivo para 2021. Será que o encontra? Será que a esta UCI o deixa encontrar? Será o fim de uma competição já tradicional?

As formas de pensar são diferentes. Os americanos não entram em nada para perder dinheiro e protagonismo. São preventivos, em tudo. Os colombianos, à boa maneira sul-americana, não andam aqui para fazer favores a ninguém. Formas de pensar diferentes que conduzem a um mesmo fim. Dentro do contexto, se a imparável maré do Worldtour e se os modelos da UCI, são de quase extorsão, seguida de abandono, aos países com ciclismo essencialmente continental, não seria pior esses países começarem a defender-se, repensando, desde logo, a estrutura competitiva interna.

Repensar toda a estrutura, de forma séria, com um plano consistente e com ideias partilhadas. Mudar regulamentos todos os anos, com alterações pontuais, e ao sabor da corrente e das correntes, não levará a lado nenhum.
Não significa este repensar virar as costas à UCI. Isso não é possível, nem recomendável. Apenas significa o mais importante papel das Federações nacionais: sustentar o ciclismo no seu território.
Luís Gonçalves