” Muitas Federações seguem em demasia o modelo de despotismo iluminado da UCI “

Pese embora o ciclismo, como modalidade, tenha poucas paragens (já aí está o ciclocross), na verdade, esta continua a ser uma altura de parar para pensar o ciclismo, sempre tendo como principal barómetro a vertente mais clássica e popular, a estrada.

Nesta tendência, a AIGPC (Associação Internacional de Grupos de Ciclistas Profissionais) deu-nos recentemente um comunicado sobre o que pensa de certos aspectos da actualidade. É óbvio que este é um tema que escapa e desagrada a quem acompanha a modalidade. É, naturalmente, muito mais cómodo e simples comentar tácticas e material das bicicletas e apenas ver as corridas. Mas, realce-se a importância das questões. Pode ser chato mas sem pensar na organização, também não há ciclismo.

De forma extensa, mas aqui resumida criticamente, diz a AIGPC que o ciclismo tem passado por países e por organizadores sem condições de garantia para a prática do ciclismo de competição, em detrimento de países, organizadores e competições com experiência, tradição, garantindo, por exemplo, a segurança dos ciclistas em prova.

O recente Proseries, um nado vivo severamente criticado, sobretudo por ser considerado demasiadamente extenso, elimina provas tradicionais e com garantias visíveis para albergar provas que geram todas as dúvidas e mais algumas. Um modelo baseado em critérios quase exclusivamente económicos e na lógica da expansão da modalidade a qualquer custo ou, pior, baseado em interesses pessoais. Aqui, a maior farpa estará no GP de Plumelec, que nos últimos três anos não conseguiu atrair nenhuma das Worldteams, mas estará no Proseries. Plumelec, terra de origem de David Lapparttient, como sabemos, presidente da UCI.

A maioria dos investimentos que permitem dar sustentabilidade ao ciclismo é feito pelas equipas. E, que investimentos, crescentes de ano para ano, como a burocracia, das equipas continentais às Worldteam. Investimentos, sem qualquer tipo de retorno visível por parte da UCI. Fluxo monetário apenas num sentido, com a desagradável contrapartida da garantia de disputa do protagonismo da UCI com os patrocinadores das equipas. Um exemplo repetido vezes a mais por aí.

Diz-se ainda que a UCI decide o que está na sua agenda e o que não está. Aqui é posta em causa a representatividade dos principais agentes da modalidade: equipas e ciclistas. No Conselho Profissional de Ciclismo, de doze membros, dois são de equipas e seis da UCI. Soma-se a interessante agravante de que se os assuntos forem propostos por equipa, o Presidente da UCI, que nem sequer é membro do Conselho, pode recusar a proposta de discussão, sem direito a apelo.

As licenças Worldteam, válidas por alguns anos, acabam por ser mordaças. A garantia de participação no Tour, implica a participação em todas as provas do calendário Worldtour, deixando muito pouca margem de manobra, para a participação destas equipas noutras provas que não estejam incluídas nesse calendário. Voltamos aqui atrás, e ao que significa o ciclismo e algumas provas simbólicas, sobretudo europeias, para esta UCI.
As questões colocadas, a que se poderiam somar muitas outras, não deixam de ser já vistas. Mas, provavelmente, a tecla do agravamento estará neste modelo construído a partir de 2020. No seu programa para 2022, David Lapparttient, anuncia com galhardia que “o ciclismo de amanhã, constrói-se hoje”. Se for um ciclismo de ganância, é o modelo certo.

Há uns anos, aqui pelo burgo, o então líder do PCP, Carlos Carvalhas, na sua fina ironia, classificou o então líder do CDS, Paulo Portas, como um verdadeiro Robin dos Bosques que “quer dar aos pobres, MAS, sem tirar aos ricos!”. Como se sabe, algo impossível. Também no ciclismo os pobres vão ficar cada vez mais pobres (ou definhar) e os ricos cada vez mais ricos. Porventura, no desporto, não só no ciclismo.

Neste contexto, já há famílias federativas a prepararem-se alegremente para a pobreza e para, irremediavelmente, mandarem emigrar os filhos em busca de uma vida melhor, sabendo que a maioria nunca encontrará o pote de ouro no fim do arco-irís. Aliás, muitas Federações seguem em demasia o modelo de despotismo iluminado da UCI. Mas a iluminação é um bem cada vez mais caro e, por tal, deve ser usado com séria prudência. Ninguém consegue iluminar tudo sozinho.
Luís Gonçalves

1 comentário a “” Muitas Federações seguem em demasia o modelo de despotismo iluminado da UCI “”

  1. Um artigo bem tratado, comentado e dissecado. Só faltou meter aqui a ASO a parceira económica da UCI que decide que provas devem constar do calendário internacional que daria «pano para mangas». Gostaria de sugerir aqui uma analise sobre o que vai ser a próxima época WT com 19 equipas. Julgo que haverá muita coisa a dizer. Cumprimentos. Jorge Garcia

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