O Giro dos quilómetros

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Dario Beni é um nome que nos diz pouco. Mas foi este o ciclista que, na primeira edição em 1909, venceu a primeira etapa de sempre no Giro com partida de Milão e chegada a Bolonha a fim de uns módicos 397 km.

Nesse ano de 1909, a mais curta de oito etapas que compunham a prova, tinha 206 km, por sinal a última. Metade das etapas, portanto quatro, tinham mais de 300 km, as duas primeiras, quase 400 km. As etapas, contudo, não eram diárias. Tinham, em regra, um intervalo de dois dias entre cada etapa. Permitia o merecido descanso, preparação para a “maratona” seguinte e, não menos importante, que fossem chegando os ciclistas mais lentos.

O ciclismo é um desporto épico e talvez o Giro, sempre tivesse sido a mais épica das maratonas de bicicleta. Não só pelas distâncias, comuns ao Tour, mas pelo que significa a geografia da Itália, a altura em que se disputa, os montes nevados, as estradas sinuosas e o próprio espírito italiano.

Mas não se sabe até que ponto, nos temos que correm, o Giro não tenha vindo a abusar dessa imagem. Em 2020, são dez as etapas, com 200 km, ou mais, cinco delas concentradas consecutivamente na última semana, pródiga em montanhas. Um factor dissuasor de qualquer ataque que não seja meticulosamente calculado para os últimos metros, uma prova mais de eliminação.

Já não são os 397 km de 1909, mas no principio do século, passado, ninguém via a etapa em directo pela televisão. O ciclismo é um desporto épico, mas também se quer um desporto moderno e atraente. Nem tudo, nem nada ou nem sempre, nem nunca. Não devemos desvirtuar a essência da modalidade, mas também não devemos massacrar o espectador comum com essa essência.

Muito menos, massacrar o ciclista moderno, que já vive num ciclismo bem diferente, de quase meados do século XXI, com um calendário muito mais preenchido e a uma escala inusitadamente global. Já nem estes ciclistas se podem comparar com os tempos de Merckx, ainda bem presentes. Até o ciclista que ganhava tudo será cada vez menos comum.
Luís Gonçalves