Do mercado ao jornalismo

A Hansgrohe, empresa alemã dedicada a comercialização de produtos de casas de banho e cozinhas e associada à equipa de ciclismo Bora-Hansgrohe, anunciou recentemente, um crescimento de cerca de 30% de comerciabilidade e visibilidade da marca, desde que entrou no ciclismo.
O investimento é grande, mas o retorno, àquele nível, parece ser rentável. Deixa-nos a pensar nos nossos empresários e nos nossos sonhos (dos menos realistas) de uma grande equipa internacional portuguesa nos tempos que correm.

O investimento português é diferente, direccionado a um mercado interno menor e mesmo as empresas com alguma dimensão internacional, a maioria, não tem assim tanta dimensão internacional, nem tantos interesses internacionais que possam ser publicitados quase em exclusivo pelo ciclismo.

No fundo o nosso mercado é limitado e, diga-se, o patrocínio de equipas portuguesas é também muito centrado na ligação afectiva dos dirigentes das empresas à modalidade. Mas não deixa esta de ser uma característica importante no ciclismo português porque permite alguma estabilidade. Claro, estabilidade e publicidade à nossa escala e a baixo custo.

Em comunicado que também não tem muito tempo, a nossa Federação anunciou que a partir da próxima época o uso de travões de disco na estrada se estende aos escalões de formação. Mais tarde ou mais cedo, uma medida inevitável e comercialmente agradável, para as marcas. Seria muito pouco provável parar esta onda, mas em escalões com tantas diferenças técnicas entre os ciclistas (normais no período formativo, porque tantas vezes é feito a tempos diferentes. Para além das capacidades intrínsecas de cada um, há quem comece a correr em cadetes e outros, nos benjamins!) será interessante ver como coabitarão os travões de disco com os ditos normais. Para as equipas, definitivamente, mais uma dor de cabeça com o material. Mas enfim, não se pode parar o progresso.

Nota final para o jornalismo especializado. O ciclismo já foi o berço e a casa de grandes jornalistas desportivos. O berço é algo sustentado. Pelos dias que correm o ciclismo parece ser visto como mera rampa de lançamento de jovens talentos e outros menos jovens, bem ou mal preparados, desde que prontos para corresponder com fidelidade às ideias editoriais de jornais e canais televisivos. Demasiada vaidade, misturada com algum desinteresse, desinformação ou falta de verdadeira consciência do que representa a modalidade e como a devem representar, nunca darão um bom profissional. O excesso de confiança na sua verdade também não. Ouvir muito e, falar pouco e assertivamente é normalmente um dom dos verdadeiros especialistas em qualquer área. Reconhecer as dificuldades e o erro, o Santo Graal, da aprendizagem. Deveria, pelo menos, ser assim. E, tanto faz estar e permanecer no ciclismo como querer “subir” ao futebol.
Luís Gonçalves