Contas simples

Em semana prévia à última das grandes provas do ano, a Lombardia, olha-se com alguma atenção para este monumento do ciclismo, mas, numa perspectiva muito objectiva.

A Lombardia é, para além da sua óbvia dimensão internacional, uma das mais importantes provas do calendário italiano, há mais de cem anos. Por isso mesmo, vista com redobrada atenção, pelos italianos. Dos mais afamados ciclistas nacionais desse país (muitos…), que pudessem chegar à vitória na Lombardia, talvez só Gilberto Simoni, Scarponni e Basso não tenham vencido e, claro, o grande Marco Pantani. De resto, uma lista que só com os italianos tornaria qualquer palmarés de uma corrida uma evidência mundial: Nibali, Bettini, Cunego, Moser, Gimondi, Coppi (o recordista com cinco triunfos), Bartali, Binda e Girardengo.

Em 1999, venceu o italiano Mirko Celestino, assumindo o primeiro lugar de um pódio inteiramente italiano. Nesse ano, na Lombardia, estiveram oito equipas italianas, uma boa parte delas do escalão principal do ciclismo de então.

Em 2009, já venceu um belga, o que é normal (Gilbert), e não houve italianos no pódio. Mas, importante, competiram cinco equipas italianas, se não me falha a memória, duas do então Protour.

Em 2019, não sabemos quem ganha, obviamente, mas sabemos que teremos três equipas italianas, todas de escalões secundários da UCI, sabendo também já que uma delas não vai ter continuidade em 2020.

Ora, se gostamos de pensar sobre o ciclismo colombiano, ou inglês, ou até sobre o renascimento do ciclismo francês, por ora tão aprazível à UCI, porventura também fosse melhor, para os lados da Suiça, na sede da UCI, pensar-se sobre o ciclismo italiano. País daqueles ciclistas e muitos outros, país do Giro, da Lombardia, do Milão-São Remo e do Tirreno-Adriático.
Cada caso de sucesso ou de insucesso pode ser visto de várias formas e com variáveis causas para esse sucesso ou insucesso. Tudo isso daria um texto extenso demais. O que se pode dizer é que há muitas Itálias por aí. Na boa expressão americana, referindo-se aos bairros italianos em solo americano, talvez “little Italy’s”. Não têm a dimensão do ciclismo italiano, mas não deixam de ter uma função relevante no seio da modalidade. Não sei se esta UCI compreenderá verdadeiramente o que é o ciclismo e a sustentabilidade do ciclismo. Parece até que percebem pouco de matemática. Em absurdo paradoxo, diminuir o número de ciclistas nas provas e, aumentar o número de ciclistas nas equipas, serão contas mal feitas. Isto, tendo em consideração a sustentabilidade do ciclismo, pela asfixia financeira e burocrática do grosso das equipas e organizadores, e não a saúde dos cofres da UCI.

Cofres com demasiada afluência e pouco ou nenhum retorno. Oxalá o Velon consiga, e tenha real vontade de pôr isso à vista de todos. Pelo menos a FIFA e a UEFA, sobretudo esta, distribui dinheiro e, mais importante, protege de facto os interesses da modalidade (até os mais obscuros).

Contas simples, porém, com uma influência terrível. Mas talvez sejam contas feitas, apenas, pela ASO.
Luís Gonçalves

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