O salto de junior a sub-23 é grande e complexo

Para o adepto comum o ciclismo parece parado. Mas, em boa verdade, se há altura em que existe agitação é esta entre o fim de época e o início da próxima época. Não uma agitação competitiva, essa visível, mas uma agitação diferente. É altura de formar equipas, consolidar ou garantir patrocínios, época de verdades e muitas especulações.

E não se pense que é só o ciclismo profissional que se agita. Nos escalões de formação, até com algum despropósito, o mercado também varia. Mesmo os veteranos fazem galhardia nas suas contratações! Tudo secreto, mas num meio tão restrito, com o paradoxo de estar quase tudo à vista de todos os que se integram na modalidade.

É também altura de fazer/receber muitos contactos. Neste contexto, se há escalão que tem dificuldades de escoamento é o de Juniores. Com poucas equipas puramente Sub-23, de ano para ano, é cada vez mais difícil absorver a maioria dos Juniores de segundo ano que, não são poucos.
As equipas continentais (e proteams), em Portugal, limitadas a nove em 2020, seguram, com alguma sorte, cerca de uma dezena. Todos os outros, alguns com muita qualidade, deveriam usufruir de um ciclismo Sub-23 mais forte, em equipas, e em provas, próprias do escalão e em função do que é o ciclismo Sub-23. Talvez também se pudesse dar alguma abertura, bem pensada, a umas poucas corridas conjuntas Junior/Sub-23.

Mesmo sendo mais difícil, terão os Juniores vontade de rumar a uma equipa continental UCI. Vejamos. As nossas equipas continentais, num limite mínimo de dez ciclistas, podem ter ciclistas com contrato profissional, sendo que os Elites deverão ter um salário mínimo anual de 13.000€ e os Sub-25 de 8.400€.

Para além disso podem ter, sem contrato profissional, apenas, ciclistas Sub-23. Estes não são remunerados (a não ser que estejam integrados numa das situações anteriores). São apenas reembolsados de despesas que realizarem no exercício da actividade ciclística, até um limite de 4.000€. Não são contratados, nem prestadores de serviços, com a implicância que isso terá a nível de segurança social. A referência é feita aos valores mínimos regulamentares, tantas vezes diferentes dos valores reais, quando existem.

O salto de Junior para Sub-23 é um passo importante. Tendo em consideração que o ideal, que seria um calendário próprio e vasto, feito em equipas próprias, não existe, é um passo que deve ser imensamente ponderado. Cada vez mais deve ser ponderado. E as verbas monetárias anunciadas, apesar de tudo, até serão o menor dos problemas.

O contexto leva-nos de um grupo amplo de futuros ciclistas a um grupo demasiadamente e repentinamente restrito de futuros ciclistas, sabendo-se, que nem todos os que chegam aos Sub-23, dão o passo seguinte. Porventura também seja preciso pensar em incentivos diferentes, porque mais tarde ou mais cedo este afunilamento exagerado, inevitavelmente, reduzirá o pelotão nacional principal. E, pelotão, já por ora, na maioria das corridas, composto com as equipas de clube.

Mas, a talho de foice, nesta onda dos contactos e telefonemas, também convém que os que pretendem ser futuros ciclistas ou apenas permanecer na modalidade, percebam definitivamente (eles, e vezes a mais, os pais) que quando chegam à difícil margem entre os Juniores e os Sub-23, têm todo um historial desde as Escolas… o meio é pequeno e as pessoas são sempre as mesmas.
Luís Gonçalves