Uns Mundiais para esquecer

Os campeonatos mundiais têm vindo nos últimos anos a constituir uma má imagem para o ciclismo, quer pelas organizações de baixo nível, quer ainda, pelos elevados gastos com que as cidades organizadores se vêm a braços, depois de desmontada toda a tenda. Os custos são elevados, as exigências cada vez maiores e à euforia vem depois, a frustação, para muitas cidades que, volvidos alguns anos, ainda estão a regularizar as contas.

Os organizadores esperavam cerca de um milhão de visitantes, mas os mundiais converteram-se num fiasco em termos de público, e os lugares disponíveis vendidos pela UCI eram a preços exorbitantes. O comércio local, de uma cidade Harrogate, eminentemente turística, uma grande parte acabaria por fechar as portas. A chuva, tradicional no país e na região, tornou-se um problema para os organizadores, que obrigaram a situações caricatas : quedas em demasia, estradas transformadas em rios, percursos alterados, quilometragens reduzidas, o que é ridículo numa prova que deveria pautar pela excelência, ou não se tratasse disso mesmo de um Campeonato do Mundo.

Não sabiam os promotores do evento que, na região, nesta altura do ano, não havia outro tempo que não este ?

Estradas transformadas em rios – Créditos : Getti Imagens

Um Campeonato do Mundo onde houve de tudo um pouco. Um engano na parte final do C/R feminino, por parte da russa Gareva, que acabou titular por quatro segundos, quando o responsável pelo desvio estava a falar e de costas voltadas para a corrida, um colombiano que ficou sem apoio mecânico, numa altura em que rolava no pelotão principal. Dizem que havia quatro carros neutros e outras tantas motas. Um VAR que não funcionou e que produziu uma da mais emblemática má imagem do ciclismo dos últimos anos : foi chamado um ciclista como campeão do mundo e, passados quinze minutos era-lhe retirado o título. Uma imagem do ciclista a chorar que correu mundo.

Vencedores que poderiam ser improváveis, como Rohan Dennis , que já não corria desde o Tour e conseguiu o título mundial. Um surpreendente Evenepoel que acabou o C/RI como quem não quer a coisa, ou um Mads Pedersen, um vencedor de todo inesperado, tal como diz Bradley Wiggins, numa entrevista ao jornal Marca, o mais inesperado dos vencedores dos últimos anos, tipo Astarloa .

Foi pois, com alguma indiferença que os Mundiais foram recebidos no Reino Unido e, por cá, valeu-nos as imagens do Mundial de Atletismo, e o esquecimento de que, na mesma data, se realizavam uns Campeonatos do Mundo de Ciclismo. É a televisão pública que temos. Valeu-nos a Eurosport, que acabou também vitima , ao não poder transmitir com a qualidade que se lhe reconhece, uma grande parte da prova. A chuva era tanta que não havia câmaras, nem feixes, nem helicópteros, nem aviões que acudissem .

Uns Mundiais que acabaram por não ter uma imagem negativa para a Seleção Nacional. Há que lhe chame equipa, nós chamamos-lhe Seleção, pois é de uma seleção que se trata. Mas quando se seleciona algo, fazem-se escolhas e dá-se oportunidades a todos e não só a alguns. Mais uma vez, e era bom que a FPC explicitasse, sem tabus, a razão pela qual não há um único ciclista profissional dos que cá correm na ” província” que caiba nas intenções da Seleção. Fiquemo-nos por aqui, que a exposição já vai longa.

JC