O que nos fica da Vuelta

A Volta a Espanha parece a mais longa das grandes voltas. Talvez porque seja a última, numa altura em que já vimos muito ciclismo. O Giro tira-nos a “fome” das grandes competições e o Tour, por mais chato que seja, parece passar sempre a correr. Mas as etapas da Vuelta, também serão demasiadamente repetitivas. São etapas a mais do mesmo estilo.

Em véspera de mudanças nos regulamentos, este ano ainda tivemos oportunidade de ver uma Vuelta com quatro equipas espanholas e o Giro com três equipas italianas. Era bom que assim continuasse, mas a vida afigura-se difícil para as equipas de ambas as nacionalidades. Em boa parte a UCI prepara-se para descaracterizar o espírito inicial das grandes voltas, no fundo uma boa substância do que é a génese do ciclismo. Mais tarde ou mais cedo, entendendo que resultou economicamente, e apenas isso, mas talvez seja para isso que caminha o desporto mundial, as outras Voltas que se cuidem.

No meio das repetições das etapas fica-nos desta Vuelta, para a história, Primoz Roglic e, provavelmente, Tadej Pogacar. Provavelmente, porque qualquer prestação deste nível num ciclista tão jovem aguardará sempre confirmação. Ou isso, ou daqui a uns anos estaremos a falar de Pogacar, como o tipo que fez uma super Vuelta em 2019 e depois não fez mais nada de relevo especial. Nada que não tivesse acontecido a dúzias de outros ciclistas. Mas, claro, de momento, Pogacar parece-nos obviamente um ciclista de enorme futuro. Por ora, estúpido seria pensar o contrário.
A nós, portugueses, pode-nos ficar também a memória de ciclistas de sucessos em Portugal. Roglic, Pogacar, Higuita e outras boas prestações, espanholas essencialmente, ou Ruben Guerreiro, num exemplo de que nas competições portuguesas também correm ciclistas de valor, ao contrário do que muito gente diz.

Mas para memória futura desta Vuelta fica, inevitavelmente, a Movistar. Nem sempre por boas razões. Porventura a equipa com mais responsabilidades na competição, bem mais do que a Ineos que fez demasiada questão de demonstrar o seu desinteresse pela Vuelta.
A questão da Vuelta foi a tal decisão do colégio de comissários, enfim, legítima, mas sabe-se lá a soldo de quem. As estruturas governativas sempre interferiram nas competições e na vida dos ciclistas. Mas desta feita foi um exagero. No fundo, a UCI, não pode decidir quem vence uma corrida. Terá desvirtuado tanto a verdade desportiva como a Movistar, aparentemente, se preparava para o fazer.

Em relação à Movistar, não diremos se fez bem ou mal. Mas, uma equipa que correu tão mal nesta Vuelta, não pode querer fazer passar a imagem de estudo de uma curva, onde sabiam que havia possibilidade de queda, preparando o ataque, de seguida, aproveitando o traçado e o vento. Embora o Paris-Roubaix, por exemplo, viva dos azares dos outros e do momento, numa grande volta, são e foram tantas as oportunidades para “tramar” Roglic de maneira leal que, para quem gosta de ciclismo, é realmente um despropósito, naquela situação de corrida, defender o procedimento da Movistar nessa célebre etapa. É a táctica daqueles ciclistas “domingueiros”, que à falta de mais capacidade ou capacidades, atacam nos semáforos quando os outros estão parados no vermelho.

Roglic, e o ciclismo, não têm culpa do comportamento de Soler e das tropelias de Valverde e Quintana, das escolhas da equipa, nem da Movistar perseguir as fugas dos seus ciclistas, até dos que podem chegar à liderança.
No meio desta confusão talvez também tivesse sido bom, Miguel Angel Lopez, ter tido outro tipo de punição na sequência do seu “incidente” no Giro, com um espectador. Aceito que até tenha sido quem mais perdeu nessa situação, mas uma punição mais exemplar, e não uma exageradamente simbólica, porventura lhe controlasse os ímpetos. Terá sido demasiadamente ofensivo com os ciclistas da Movistar. Em bom resumo, no fim dessa etapa, Soler dizia que apenas fazia o que lhe diziam para fazer.

De malas aviadas para outra equipa, última palavra para Gilbert. Notavelmente, profissional. Ao alcance de poucos, mas à vista de todos os que quiserem realmente aprender.
Luís Gonçalves

1 comentário a “O que nos fica da Vuelta”

  1. A mudança nos regulamentos da UCI vai ser importantíssima, apenas dessa forma poderemos aspirar a ter equipas portuguesas nas grandes voltas

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