Às Voltas com o futuro

A Volta a Portugal do Futuro é uma competição importante. Tem andado, contudo, demasiadamente ao sabor da corrente. Das competições mais relevantes, talvez seja a prova mais adaptada em anos sucessivos, mas também, diga-se, a mais adaptável. Mas isso, tira algum rigor aos resultados finais.

Oficialmente, começou em 1993, com bem mais dias do que actualmente, sendo interessante assinalar, com a vitória de Joaquim Gomes, já na altura mais a caminho dos trinta anos do que dos vinte, ele, que nesse ano, venceu também a Volta a Portugal, dos “grandes”. Nos anos seguintes, juntaram-se bons nomes do ciclismo português e até um futuro vencedor da Volta a França, Oscar Pereiro, em 1999.

Pegando no exemplo de Joaquim Gomes, logo o primeiro, as circunstâncias da altura ditaram aquela regulamentação da Volta do Futuro, mas também ditaram um vencedor que já tinha vitórias em duas Voltas a Portugal (1989; 1993), já tinha estado em Voltas a Espanha, tinha já uma carreira confirmada, ou seja, não o que se pretende de um vencedor de uma corrida de futuro.

Também tivemos bons anos, exclusivamente com equipas verdadeiramente Sub-23. Voltas do Futuro, que eram complementadas com um calendário anual sólido e substancial para o escalão e que, visto à distância, nos trouxe realmente resultados de futuro.

Outros anos, mais esquisitos, com ciclistas de equipas profissionais emprestados a equipas de clube, mas pelo menos com idade Sub-23, ou então participação de equipas com ciclistas próprios dessas equipas, mas num misto de profissionalismo e amadorismo, no fundo, como ainda este ano sucedeu. Não é a forma ideal.

Note-se que, ao invés destas soluções, há uns anos, uma equipa, tendo em conta a qualidade do calendário Sub-23, podia ter a estrutura profissional e a amadora bem definidas e com calendários alternativos. Algo que nos tempos que correm é impedido pela falta de calendário exclusivamente Sub-23. Mas mesmo nestes anos, quando convinha, o regulamento da Volta do Futuro adaptava-se. As Voltas do Benfica são sinal disso.

Olhando para a Volta do Futuro 2019, sabe-se que, para não variar, é fruto de um conjuntura, mas não deixará de ser um contexto injusto para as verdadeiras equipas Sub-23. No momento em que teriam, finalmente, a sua corrida, acabam por levar a machadada do costume.

Observando o plano nacional, nos trinta primeiros da geral, são três os elementos dessas equipas. Competem directamente com ciclistas que vieram recentemente da 81ª Volta a Portugal. De qualquer forma, ainda bem que este ano, todos Sub-23.

Por ora, com a falta de equipas Sub-23, não há muito que se possa fazer para contornar a questão. A Volta do Futuro, não deixará de nos dar indicações para o futuro. Mas será sempre preciso estarmos atentos ao regulamento de cada ano, para podermos enquadrar melhor os dados nesse futuro. Será pura especulação, porque a corrida seria obviamente diferente, mas vendo os dados quase matematicamente, mais do que o resultado (merecido) do Emanuel Duarte, teremos que pensar bem na prestação do Vinicios Rodrigues, ou na etapa do Carlos Salgueiro.

Bem, se excluirmos Joaquim Gomes (por não ser uma revelação em 1993, não pelo ciclista e pela pessoa, naturalmente), as indicações de futuro estarão sempre lá, a lista de vencedores vai confirmando isso, mas a sucessão de normas acaba por desvirtuar um pouco essa apreciação, sobretudo num escalão, como todos os outros de formação, onde nunca devemos reduzir tudo ao sucesso visível no momento.

De uma forma mais abrangente, não podemos deixar de mencionar, de novo, e já sabemos que é uma ideia desagradável, que mantemos, a profunda desigualdade em que estão envolvidas as conhecidas equipas Sub-25. Competem em profunda desigualdade na 81ª Volta a Portugal (os custos das equipas continentais, a sério, são incomparavelmente maiores) e ainda têm a, garantia, de fazer a Volta a Portugal do Futuro. Uma ideia, para outros, demasiadamente tentadora para um ciclismo frágil. Mais tarde ou mais cedo vão ser questionados os limites estabelecidos para estas equipas. Teremos de ter atenção às novas ideias da UCI, nomeadamente, às regras impostas à participação de equipas nos mais diversos calendários.
Luís Gonçalves