O futuro das grandes Voltas

Em 2020, uma boa parte da estrutura da UCI, em termos de regulamentos relacionados com os vários rankings existentes, vai sofrer alterações significativas.

De uma forma simplista, mudam os nomes ao escalão das equipas, sendo que a mais significativa será a mudança de equipas continentais profissionais para UCI Proteams, reorganizam o sistema de ranking tornando-o unitário e, talvez mais importante, aglomeram as provas HC e classe 1 num novo escalão UCI Proseries. Não todas as provas HC e classe 1, mas apenas aquelas que obedecerem a uma lista de exigências criada pela UCI, onde, certamente, constarão também directrizes de dispersão das provas pelo mundo. Ou seja, não bastará que todas as provas europeias cumpram essas exigências. Um pouco à semelhança das qualificações olímpicas.

Bem, depois da breve introdução, quanto às grandes Voltas, a partir de 2020 serão compostas de 22 equipas de 8 ciclistas cada. Nada de novo a não ser que, para além das equipas do UCI Worldtour, as duas melhores equipas das UCI Proteams classificadas no ranking passam também a ter acesso directo às grandes Voltas. Isso deixará, apenas, dois lugares para equipas convidadas, sendo que até aqui as organizações dispunham de quatro convites.

A justiça da inclusão das melhores equipas UCI Proteams talvez seja evidente. Mas deixará de fora a possibilidade de outras equipas disputarem a “sua” Volta. Tomando o exemplo da Vuelta, a vida poderá ficar difícil para a Caja Rural, a Burgos-BH ou para a Euskadi-Murias, equipas que, qualquer uma delas, vivem bastante da sua presença na Vuelta.

Virando o bico ao prego, verdade seja dita, também a Vuelta não pode prescindir de uma parte substancial das equipas espanholas, nem poderá dizer que não à Cofidis, se esta ficar fora dos dois primeiros lugares do ranking.

Qualquer Volta a um determinado país precisa das suas equipas que, normalmente, trazem ciclistas da sua nacionalidade, mais fáceis de empolgar o público. Para a generalidade dos espanhóis, bem mais valorizada será a vitória de um qualquer espanhol, do que a do Sam Bennett, que poucos conhecem.

A escravatura das regras estende-se ao Giro que este ano pode contar com a Androni, Bardiani e Nippo, sendo que os espanhóis ainda têm a Movistar, mas os italianos “niente”!

A questão pode ainda ser vista de forma mais ampla. Regras são regras, é certo. Mas quem anima mais esta Vuelta? A CCC? A Dimension Data? a Ineos?! ou a mais pobre Burgos-BH. De quem vivem as fugas no Giro ou no Tour? E o que é o ciclismo sem fugas?

Sempre foi natural que as equipas locais e os ciclistas locais se empolgassem mais com a sua Volta. Isso anima o público, o grosso do público de que qualquer desporto precisa e não só os “especialistas” e essas grandes massas agradam aos patrocinadores das equipas, sobretudo aos que dependem mais dessa visibilidade durante três semanas.

O dinheiro ditará sempre a mudança de normas, mas é interessante reparar que estas também são tomadas numa altura de expansão do ciclismo francês, em termos de ciclistas e de equipas e na liderança de um presidente francês na UCI. O mesmo presidente teria promovido o mesmo há uns poucos anos atrás? Privaria o Tour de equipas francesas e ciclistas franceses?
A sustentabilidade do ciclismo estará em muito mais do que ver o UCI Worldtour. A Volta a França até suportará tudo, mas a Vuelta, por exemplo, dependerá de muitos outros factores. Sempre será interessante ver os Bascos, inúmeros Bascos, a apoiar a Euskadi. E essa é uma boa imagem para o ciclismo e para a Vuelta.

Poderá ser um ponto de vista redutor. A Champions League (no futebol) também está cada vez mais aborrecida e previsível, mas cada vez dá mais dinheiro. Só que dá mais dinheiro, a cada vez menos clubes. Se é para este elitismo que avança o desporto mundial, então a UCI está no bom caminho. Embora seja preferível ver os Bascos na estrada!
Luís Gonçalves