Joni Brandão entre Jorge Corvo e Gamito

No final da décima terceira etapa da Volta a Portugal de 1999, num contrarrelógio de 36,7 Km em Cantanhede, um inconsolável Vitor Gamito entrava numa tenda da organização, sentava-se no chão e punha as mãos à cabeça tentando esconder a enorme frustração que sentia por, mais uma vez, não ter conseguido vencer a Volta.

Continua a ser uma imagem forte que, passados vinte anos, estará ainda bem presente na cabeça de muitos fiéis seguidores da modalidade. Gamito tinha lutado, assumira a amarela desde a quinta etapa, mas, na geral, sucumbira perante David Plaza (Benfica), na sua especialidade. Espanhol que lhe ganhou segundos, mesmo com um furo pelo meio, até recuperar e acumular nove segundos de avanço que lhe permitiriam consagrar-se no dia seguinte entre Águeda e Matosinhos.

Vinte anos depois, não podemos deixar de pensar em Gamito, quando vimos Joni Brandão entrar no carro da Efapel, deitando-se no banco de trás. Outra imagem que provavelmente perseguirá durante muito tempo os mais fiéis adeptos da modalidade.

Em 1999, Vitor Gamito, acumulava o seu quarto segundo lugar. Mas, em 2000, alcançaria a vitória que perseguia há tanto tempo. Uma mítica “cavalgada” Torre acima e um famoso contrarrelógio em que ultrapassou Moller, o principal adversário, à entrada de Marvão, tornaram a sua vitória célebre.

Nesta Volta a Portugal de 2019, Joni Brandão teve o mérito de se intrometer entre a hegemonia portista, diria até, entre a hegemonia portuense, com o visível domínio do W52-FCPorto e os visíveis sucessos da RP-Boavista. De certa forma, foi o grande animador da Volta que, sem essa intromissão e sem a luta até final, acabaria por ter pouco sal. A Efapel viveu disso, e bem.
Não se sabe se Joni Brandão precisará de mais um segundo lugar até atingir o objectivo máximo, à semelhança de Gamito, ou se, será já o vencedor no próximo ano, por exemplo.

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Jorge Corvo

Mas sabe-se que o ciclismo também é fértil em figuras de luta que acabam por nunca chegar à vitória final. Sem ser preciso sair da nossa Volta, com naturalidade nos vem à memória o grande Jorge Corvo, segundo classificado por três vezes, mais um terceiro, sem nunca ter vencido a Volta.

E repare-se, em reais Voltas a Portugal, em 1959 perdeu por cinco segundos, em 1963, por 25 segundos e em 1964, por 44 segundos. Todos os segundos lugares somados dão pouco mais de um minuto! Sempre no Ginásio de Tavira, clube da sua terra natal, perdeu a amarela em 1963, precisamente na pista de Tavira.

Só o futuro dirá se Joni Brandão se consagra num Jorge Corvo, ou se alcança finalmente o feito de Vitor Gamito. Não há mal nenhum em ser Jorge Corvo, tal como continua a existir um carinho enorme por Poulidor, o exemplo máximo do segundo classificado, sem vitórias, no Tour.

Mas para isso também é preciso ser uma figura incontestada. Mesmo sendo segundo, a diferença entre ser um herói da estrada ou não, é muito ténue. Tal como é ténue a diferença entre ganhar e perder. E numa Volta bem mais curta do que as de Gamito e as de Corvo cada vez mais os pormenores contam. E por vezes há pormenores decisivos, ora na estrada, ora, não raras vezes, fora dela.
Luís Gonçalves