Obrigado Volta a Portugl

Ninguém pode negar que, no panorama nacional, a Volta a Portugal em Bicicleta é um fenómeno desportivo. Mas não menos importante do que a vertente desportiva é o relevo social que tem por todo o território português.

É já um lugar comum dizer que não há modalidade que chegue melhor às populações. É um lugar comum, mas nunca nos devemos fartar de o dizer.
Enquanto dava uma volta de bicicleta por uma das terras pouco desvendadas deste país, num local onde tinha passado esta última Volta, lia-se na estrada: “Benvinda Volta a Portugal” e, mais à frente, “Obrigado Volta a Portugal” e, à saída da localidade, “Até sempre Volta a Portugal”. Bem, o primeiro é uma cortesia habitual e o último até parece algo estranho.
Não era por ser a subir, mas o que mais me deixou a pensar durante alguns quilómetros, onde pouco mais se via do que pinheiros (e eucaliptos), foi o “Obrigado Volta a Portugal”.

De facto, ali no Norte alentejano em cruzamento com a Beira Baixa, o que se passava de relevante durante o resto do ano? Nada. Ou, a não ser os famigerados incêndios que por vezes lavram pela zona e trazem as localidades para uma infeliz e então piedosa ribalta, que se passa de realmente interessante: A Volta a Portugal em Bicicleta.

São quase cem anos de uma empatia especial e sem comparação. Já não é a Volta que todos queríamos, do Algarve ao Minho, mas continua a ser a Volta de todos, a Volta que termina na cidade do Porto, sem esquecer que há bem mais vida no país, para além das nossas grandes cidades. É o dom especial do ciclismo.

Mas se naquela localidade do interior do país foram genuínos ao ponto de agradecer à Volta a Portugal, também seria interessante que mais gente, muita gente, empresas, ou entidades, fossem capazes de dizer “Obrigado Volta a Portugal”. Não será preciso escrever na estrada. Há outras formas de reconhecer o mérito a quem o tem. Não farei nenhuma lista de entidades porque se tornaria maçadora de tão extensa, mas se a fizesse, começaria pela RTP.

No contexto, em bom rigor, também se deve dizer que a Volta continua a ter alguns dos melhores jornalistas da estação pública de televisão o que, de certo modo, também continua a dar notoriedade à competição. Não precisam esses de escrever nada na estrada. Nós sabemos.

Fora de contexto, mas relacionado, talvez a nossa Federação pudesse rever um pouco esta questão dos calendários sobrepostos. Ao mesmo tempo que decorria a Volta a Portugal, também se competia na Volta a Portugal de Cadetes. Duvidoso nalgumas localidades de passagem porque as populações confundiam as duas, ficavam sem saber porque estavam em Abrantes e não em Loures, retira algum protagonismo aos miúdos e, talvez pior, retira-lhes a oportunidade de, durante uns dias, acompanharem ao pormenor os seus ídolos, ao vivo, ou na televisão. E os directores/treinadores também gostam de ver! Até pode não ser fácil, mas eu tentava, pelo menos, rever a questão.
A sincera importância da Volta, para todo o território, estava bem expressa naquela frase de agradecimento. Gente atenta. Bem menos distraída do que o nosso Presidente da República, que há muito não vemos pela nossa Volta, apesar de andar à volta de tudo, e que ainda anda esquecido do bi-campeão europeu e campeão do mundo de maratonas. Talvez também seja conveniente alguém de direito lembrá-lo.
Luís Gonçalves

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