Um país, um diário e uma lição de jornalismo

A Volta a França continua a deixar o vencedor final em suspenso. Hoje, com evidência relevante. Mas não é a Volta a França que terá hoje o meu destaque.

Nos últimos dias estive no País Basco, a acompanhar uma prova com quase cem edições, a Clássica de Ordizia. O número de edições mostra bem a tenacidade dos Bascos. Mas mais do que isso, demonstra bem a paixão que têm pelo ciclismo.

Quando tive oportunidade, passei os olhos pelo principal jornal Basco, o “El Diário Vasco”. Um diário generalista. Com a abertura que caracteriza os Bascos, política, economia, saúde, opinião, desporto. Mas num diário generalista, várias páginas dedicadas ao ciclismo, que também é um desporto. Dedicadas exclusivamente ao ciclismo. A maioria com o Tour, talvez três ou quatro, e outras com as previsões da Clássica local, com traçados, equipas e projecções. De uma e de outra competição, textos bem construídos e de conteúdo útil. No dia seguinte ao da prova local, mais páginas (ainda) de destaque àquela que é uma das provas mais antigas do mundo e o mesmo ritmo em relação ao Tour. Uma, não tirou lugar a outra.
No meio de um ambiente onde se respira ciclismo, com imensa gente a pedalar (numa zona geograficamente difícil), com muitos coleccionadores (garrafas, sacos, postais…) espanhóis, franceses e até um belga e onde se pode falar abertamente da modalidade. Do que é bom e do que é mau, sem preconceitos, com conhecimento, de uma forma objectiva, sem suposições. Ou seja, como eu gosto. Pude falar com alguma abertura de situações (que até tinham a ver com Bascos), o que, em Portugal, seria pouco plausível, porque se levam as coisas, sempre, demasiadamente pelo mesmo caminho. A paixão dos portugueses pelo ciclismo não é muito menor. Mas está redutoramente mal encaminhada.

Já se adivinhava, mas mesmo assim fiquei admirado com o nível de conhecimento que os Bascos têm sobre a modalidade e até sobre as equipas portuguesas e o ciclismo português.

Os Bascos têm um trato que parece algo rude, mas são práticos e, normalmente leais. Têm de facto uma enorme paixão pelo ciclismo, parecem “maus”, mas são condescendentes quando é preciso, e prontos a ajudar no que for necessário. Talvez saibam, porque estão rodeados delas, que os maiores obstáculos na vida de um ciclista são a dureza das montanhas. Não ignoram nunca a dificuldade que é competir de bicicleta. Talvez também por isso, o diário generalista Basco, tenha tantas páginas exclusivamente dedicadas ao ciclismo e talvez também por isso fossem incapazes de ter um David Walsh entre os Bascos.

Porque gosto de papel (cada vez mais um defeito), já em Portugal, comprei os três jornais desportivos. Diários, desportivos! Pelo menos dois dizem que são. Como sempre, comecei pela capa, depois do fim para o principio, parando antes do meio. Não sou. Mas se fosse jornalista, e quisesse ser um verdadeiro jornalista, sem suposições e com objectividade, estaria preocupado. Seria a minha principal preocupação.
Luís Gonçalves